Waldísio Araújo

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE

CRÔNICA DA VIDA UNIVERSITÁRIA

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Delacroix: Dante e Virgilio no InfernoDescontadas as diferenças individuais, mensuráveis em segundos, todos os pulsos da Universidade, outrora afeitos às coreografias de manifestações esquerdistas, indicaram doze horas. Resultado de um processo multissecular de anexação do cronômetro ao corpo (ou vice-versa) e, até então, contidos pela fome e o tédio das últimas quatro ou cinco horas, os ponteiros viriam a detonar uma série de movimentos encadeados: o fechamento abrupto dos livros, a fuga das salas de aula, os passos apressados pelos corredores, os encontrões nos portões de saída do Campus...


À somatória do produto das massas de todos aqueles corpos por suas respectivas acelerações e deslocamentos um espírito científico, mas ocioso, poderia batizar com o belo e pomposo termo “trabalho”, caso um espírito profano, mas trabalhador, não viesse a propor chamar-lhe “ociosidade” –não obstante ambos os termos adequarem-se perfeitamente a seu objeto e contribuírem, assim, para a redução daquela multidão à unidade.


Unidade que seria conduzida à multiplicidade, tão logo ultrapassados os limites do Campus: grupos compactos atravessariam as ruas e, mediante divisões sucessivas, iriam diminuindo a cada esquina até que o último dos seus átomos transpusesse os pórticos do lar, último obstáculo a ser eliminado antes que a unidade, definitivamente vitoriosa, viesse a sentar-se à mesa.


E eis que um futuro Renoir, Mozart, Balzac, Platão, ou mesmo Newton, irá devorar, com muita gravidade, sua enorme fatia de omelete, comentar o caráter invejoso dos dois ou três colegas que o precedem imediatamente na hierarquia das notas e refutar – baseado em leis insuportavelmente científicas – todos os princípios ideológicos do cristianismo de seus pais, na medida em que estes, irritados, irão perder todo o interesse pela metade de seus respectivos almoços (e pela totalidade de suas não menos respectivas sobremesas), irão meditar profundamente sobre a inutilidade das cinquenta e tantas voltas que deram em torno do sol e fazer ouvir ao jovem ateu – com argumentos tão rigorosamente indemonstráveis quanto qualquer “lei” da História ou da Sociologia – os castigos que o Criador (“cuja bondade é infinita!”) reserva aos ímpios nas regiões sub-paradisíacas.


E acontecerá que, paradoxalmente, todos sairão rumo ao diário castigo terreno do ganha-pão, exceto nosso geniozinho em potencial, que permanecerá refestelada e beatificamente sentado frente ao aparelho de TV, de onde sairão as sugestões mais empolgantes para os conflitos do jantar – discussões que, aliás, projetar-se-ão noite adentro e lua abaixo até que o último a abandoná-las, não mais vitorioso que o primeiro, venha a apagar a derradeira lâmpada e a recolher-se a sua cama, onde permanecerá até o instante que o despertador lhe conceder... mais “cinco ou dez minutinhos”.


Imaginai, leitor, aquela sensação de frustração que nos ocorre quando somos violentamente despertados de um lindo sonho, prolongai-a mentalmente pelas cinco ou seis horas seguintes, considerai-a inserida num espaço físico constituído por um monótono alinhamento de cadeiras distribuídas em algo como filas de dez e colunas de sete ou oito e adicionai, a tudo isso, a impressão que vos causaria a presença de um sujeito idoso, lento, baixo e irascível que vos fizesse ouvir falar, demorada e tergiversadamente, sobre a estrutura duplamente helicoidal do ácido desoxirribonucléico. Finalmente, acrescentai todos esses pesadelos aos que puderdes abstrair dos cinco parágrafos anteriores e tereis um idéia, ainda que um tanto pálida e nada platônica, de quanto lixo civilizacional um estudante universitário mediano pode vir a acumular no decurso de um único giro em torno do eixo da Terra.


(Escrito originariamente como pequeno desabafo afixado nos murais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, antes de abandonar definitivamente esse grande celeiro da incompetência acadêmica.)



(por Waldísio Araújo. Escrito por volta de 1990)




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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:51




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