COMO SAIR DO MUNDO SEM IMERGIR NO NADA?
A prosa, mais que a poesia, nos proporciona um distanciamento em relação ao mundo da realidade cotidiana, tendo em vista que reforça as reivindicações da imaginação ao inventar mundos novos e povoá-los e nos convida a neles viver com certa intensidade durante algum tempo. No entanto, essa vivência dá-se de forma superficial em comparação com a poesia — a qual, ademais, aprofunda o nosso próprio mundo, intensificando-o mediante a beleza. E, dentre todas, a poesia lírica dirige-se tão intensamente ao mundo que o poeta acaba por orientá-la para dentro de si mesmo como se, expandindo-se, ela tivesse que reencontrar aquilo sobre o que ele mentira essencialmente ao sentir-se autônomo, externo ao mundo.
Nesse sentido, nosso século é coerente consigo mesmo ao valorizar a prosa, pois nunca houve como agora tanta fuga ao mundo "real", um mundo que não mais necessita encontrar-se em sua própria poesia, mas olvidar-se em outros mundos, ainda que fictícios.
Mas então precisamos ainda escrever em prosa antes que o homem abandone a vida não mais em troca de universos fictícios, mas pelo engajamento a uma imersão num Nada sem redenção possível, quer prosaica quer poética. A narrativa em geral, à qual a prosa literária pertence, é talvez o último baluarte contra a barbárie.
(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:15:21