DEIXEI DE SER HOMEM
Hoje, deixei de ser homem.
No zoológico, vi uma girafa
Lambendo o sexo de sua cria.
Havia ruídos de leão,
tigre, águia crocitando,
urso sedento de alimento e vida livre...
Uma criança lançou pipoca ao macaco
e me surpreendeu seu flagrante delito
de dar comida aos animais,
como se aquele primitivo primata
pudesse evoluir
por entre as grades
e virar gente de repente,
enquanto a girafa lambia
o morno sexo de seu filhote.
Hoje, deixei de ser um homem
e a humanidade me possuiu.
CANÇÃO DE ALTO-MAR
Água cai lá na feira
Peixe dá lá na feira
Vida está lá na feira
Gente vai lá p’ra feira
Zeca vem lá da feira
Tudo traz lá da feira
Lá
Não há tanta ladeira
Se se perde num cais
Consola-se na areia
Leva tudo o que traz
Larga de brincadeira
As espinhas p’ro mar
Lá
Não é tanta a poeira
Não é como o oceano
Que carrego na esteira
Muita dor de saber
Que o melhor que há na beira
Ninguém pode cantar.
CARAVANA
As pegadas nesta estrada
Não apontam para um sentido
Nem sugerem, sequer, direção.
Mas a variedade dos destinos,
Deduz inumeráveis caminhos:
O de voar, que sonha olvidar a terra;
O de correr, que anseia por fugir
da terra;
O de rastejar, que forceja
por imprimir-se
nas profundezas
da terra
E a mistura de todos,
Que perfaz a turbulenta multidão dos entes.
À margem acumulam-se os sonhos:
Lançados a tempo ao tempo
Aí se desfazem.
A chuva que cai:
refresca os seres saciados
Afogando os sedentos
Virá o sol e aquecerá os mais fortes
Calcinando os mais fracos...
Mas cada revelação
É muito mais que um desengano:
É miragem
A nos impulsionar...
REBELIÃO
Quero a liberdade dos furacões,
Cometas, tigres, heróis, profetas
E poetas;
A liberdade tornada possível,
À custa das leis naturais.
Quero comer quando tiver fome;
Beber, quando a sede apertar;
Dormir se houver sono e despertar
Quando o sonho acordar-se.
Repetir tudo isso eternamente...
Vencer, perder, criar, destruir,
Querer sempre a dor
De morrer quando o instante chegar,
Se chegar
No momento que eu tiver desejado,
Ou no ponto em que o desejo esgotar-me.
QUERER E PODER
Procurar
A proximidade da morte
Para afirmar a vida
Acreditar
No sentimento das coisas
E conquistar suas feridas
Contemplar
A destruição dos mundos
Doravante construídos
E quando quiser ter que morrer
Ter simplesmente morrido
FÔLEGO DA VIDA
Criei-te só desejo e liberdade
e criei-te os meios
que pesquisasses debalde o teu fim
E dotei-te de sentidos
Mas e fiz-te mudo
e cego
e surdo
sem tato
sem olfato
nem paladar
Para que me escondesse em ti
e não me achasses
Para que vivendo de mim
te matasses
Para que tornasses a ti
e eternamente não me encontrasses
E fiz caminhos de coisas
infinitas e fora de ti
por que me procurasses em vão
e te perdesses
na minha vazia imagem
que fizestes para ti
ESPAÇO-TEMPO
A paixão das estrelas:
Entregam seu brilho
Milhões de anos adiante
De sua definitiva morte
E nós, cometas,
Apenas pensamos, conjugamos a vida
No eterno e circular passado,
Num mais-que-perfeitíssimo pretérito;
Nossa estrela se apagará para nós um dia,
Para iluminar, como sempre,
Os confins da noite universal,
Onde um homem, talvez,
Por espanto, estará,
Ainda no passado,
Escrevendo um louco poema:
Este poema.
GILGAMESH
Arqueólogo das coisas inefáveis
Busco sob as areias da noite
Que inundaram de silêncio
A fortaleza imortal da sagrada Uruk
A sombra retumbante
Do sábio dos sábios
O hercúleo Gilgamesh
Busco essa humana perfeição
Que duvida de tudo
Por acreditar em si mesmo
Busco o super-homem mais que semideus
Busco nesse herói-aprendiz
A vontade de perscrutar os infernos em vida
(Como o sol, como a serpente,
A estrela da tarde ou da manhã)
E a competência de conjurá-los morrendo
Busco gravar em minh’alma o sinal
Da meretriz sagrada
E entregar o meu todo,
Meu corpo
Ao nobre, ao valente
Ao belo e sábio Gilgamesh.
(por Waldísio Araújo)
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