Waldísio Araújo

CRÔNICAS DO INALCANÇÁVEL

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MONOLITO


Perdida por entre as estrelas,
Dorme a madrugada, estática, vazia,
E aqui dentro, comprimidos
Ritmo, emoção e harmonia

Nesse silêncio, a correnteza morna
Dissolve o sal da rocha exposta ao tempo;
Nas tristes cascatas de erodidos sentimentos,
Loucos pensamentos de infinitas arestas
Irão sedimentar,
E a desviar-se de túrgidos espasmos
Árida torrente inundará lábios sedentos.

E lá do fundo do abismo:
”Onde a razão?”,
Geme, soluçante, um grito.





AUTÓPSIA


Há um homem lá dentro:
É preciso matá-lo,
Preciso extirpá-lo,
Fazê-lo parar,
Abatê-lo:
Incomoda.

É mister atirar:
Há mil balas
         e todas acertam,
Há mil setas,
         são todas mortais.
Meu Deus, como é fácil matar!

Há mil mortes,
E todas iguais:
Basta ao acaso atirar,
Basta ter vontade,
E eis nosso homem
Morto.

Há mil cacos
De gente:
         estilhaços
Encravados no meu peito.





REFLEXOS DE REFLEXÕES


Frente a frente
Ao espelho eu me enxergo
Nos espelhos que me vêem

Dois espelhos face a face
E a minha cara no centro
Meus espelhos cara a cara
E mesma face no meio

Divisão
Por infinito não conheço
E multiplicar por infinito
Sequer concebo

Tète-a-tète: miríades de espelhos
A mirar-me por todos os lados
Em que por primeira vez me vejo

Mas agora eu enxergo
Infinitos mil lados
Em volta da minha cegueira
E nos outros incontáveis meus cacos
Os inumeráveis assassinos
Do meu eu único vejo





CATACLISMO


Minhas lágrimas viraram lava
De um extinto coração
Enquanto
Lá fora o galo
Num único impulso de muitos cantos
Regurgita uma aurora

E eu, lentamente,
Saindo do silêncio das trevas
Penso que o tique-taque
E o relógio estavam o tempo todo ali
E vou deixando
A centelha expirar
Bruxulear
Agonizar
Devagar
(Basta não respirar...)

Mas é preciso ar para conter o pranto
E para explodir meu peito de espanto:
Ar para avivar a chama
Ar para enfunar a vela
Ar para revolver a terra
Ar para encrespar o mar...

Ar! Ar! Ar!

Cospe das profundezas teu fogo, ó vulcão!
Lança o teu raio e trovão na noite
Desperta a humanidade
Que adormeceu de tanto esperar:
Há montanhas a conquistar:
Refazer o degelo nos picos
Inundar de sangue e suor os vales
Carrear com os rios a planície
E transbordar o mar...

Mergulhai no vórtice, ó pensamentos!
E aprendei a navegar!





(por Waldísio Araújo)




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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:41




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