Waldísio Araújo

A PERMANÊNCIA DO QUE SE ESVAI

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O SER NADA


Tudo passa e tudo fica
Tudo adeja como o instante
Que se dissolve em duradoura saudade
Ou como as gotas incongruentes
Que no mar redundam iguais

Tudo flui dentro do rio
E tudo nada
Como a poesia de estrada
Que os pés escrevem no chão

E tudo paira sobre o mundo
Tal qual o beija-flor
Que floriu nosso jardim
E num só segundo sumiu





BEIRA-MAR

Sol e água
Sal e vento
Vindos dos quatro elementos
Nadam voam correm
E escorrem
Para a beira de um mar

Rochedos e conchas
Roteiros e lanchas:
São pedaços da ilha infinita
Da vida que pinta
E transborda de luz
Uma beira de mar

“Homens ao cais!”
Eis o canto da sereia
Eis o mulheredo
Encalhado na cálida
Areia que limita
Que define
Que linda
Um oceano sem fundo
Que começa e que finda
Na beira do mar





URUBU


Ave! Imperador do lixo imundo,
Urubu, rei
Herdeiro dos tronos do mundo;

Nobre em paletó preto,
Sujo, feio, barato e puído;
Digno senhor de um planeta poluído;

Guardião da sagrada Cadeia,
Sacerdote,
Fiel,
Pecador,
Penitente,
O Funcionário, enfim,
Mais competente;

Co-autor de toda geração e morte,
Evitado somente por não saber cantar!

Ave diurna negra como a noite,
Ave soturna visível como o dia,
Sempre à espreita como a morte
Sobre toda a encruzilhada da vida!

Ó presença ubíqua sobre os sinais da estrada,
Fingindo não te ver, nós te saudamos

         E passamos.





DESTINO


As linhas do asfalto
(Pré-traçadamente descontínuas)
E o rádio do carro
Profetizam previsível final
De segundo tempo sem prorrogação

O velocímetro marca
De quando em quando
A proximidade do final

A morte passa
vestida de juiz
de futebol

O guarda apita
uma falta
e passa

Ouve-se um silvo agudo
E o jogo se acaba
Vencida a partida
Vencida a distância
Vencidos os prazos
De vencer, vencer, vencer...

E o pé inerte sobre a acelerador
Um filete de ironia para o canto da boca.

Uma vez Flamengo...





O ÚLTIMO TREM


Partiu agora para sempre
Rumo ao desatino
De ser esperado eternamente
Por toda a desesperada gente
Que a estrada de ferro criou

Se desencaminham todas as estações
E as velhas maltratadas linhas
Bem traçadas sobre dormentes

São passageiros
Os postes de telégrafo
E incapazes capatazes
Sobre homens em silêncio trabalhando

Passa ligeiro paralelo ao
Tempo o viandante
E o último vagão se esvai
Apagando consigo os trilhos do passado

E o futuro lhe servirá de rastro
Ao longo do longo traçado
Doravante desativado





GIORDANO BRUNO


Trazias as chaves das saídas do mundo
Mas o fogo as fundiu contigo
Por isso te espalhas
Por entre os céus
Por isso te reencontro
No final de cada grande dia

Por isso me ardo por entre as chamas
E te respiro o hálito, enfim purificado
O ar puro dos hereges e feiticeiros
O ar de quem vê através do fogo

O momento da morte
Deixastes para sempre
Para trás
Agora é somente passado
Durante e após
Agora, enfim,
As cinzas de tua curta vida
Sábia, corajosa e errante
Descansam em paz dentro de nós





PAPEL DE PAREDE


Borboletas e flores
Vicejam e revoam
Em volta de mim
No papel de parede

E aquela barata morta
Solitária num canto da casa

I

O tique-taque
Tique-taque
Tique-taque
Vindo das paredes
Parece o cavalgar da morte
Que vem chegando de mansinho
Após ter pisoteado primeiro e de súbito
O inseto inserto na mobília
Como supremo conhecedor dos recantos

Como chegara nas borboletas
E na flora fóssil das paredes

II

E a barata floresce e esvoaça
Em torno de mim

Talvez dentro de mim
Em minha própria sala de espera
Em cujos cantos descubro
Ou invento
Uma triste barata solitária
Mil vezes reproduzida no papel de parede

III

Será Deus?
Meu Deus! será Deus?

Se Deus
Eu O matei naquela barata
Poderia matá-lO infinitas vezes
Sendo como Ele
Eterno?

E contemporâneo de todas as baratas
Que jazem solitárias pelos cantos?

IV

Pela luz da porta
Uma sombra me lança uns escritos
Será para mim?
Para o morto ser rastejante?

Será cobrança?
Um poema?
Aviso de despejo?
Meu Deus! será um aviso de despejo?

Corro para ver
Enquanto a barata prossegue
No seu eterno cavalgar

Tique-taque
Tique-taque
Tique-taque...





(por Waldísio Araújo)




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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:41




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