Waldísio Araújo

QUATRO OU CINCO FORMAS DE AMAR

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ANTÍDOTO


Chega de amor sublimado!
Agora eu quero o falso de verdade
E a mentira finalmente apaziguada
Porque Amor não pode mais calar-me

Então eu o xingarei
Direi impropérios
Juras de desamor
Promessas de desamor
(Trocarei cartas de desamor!)
E então ele virá...

Chega de amor domesticado
E que se deseja apenas
Entre as quatro paredes
Feitas do chumbo extraído
De si mesmo

Quero derramar-me pelo mundo
Das sarjetas aos palcos
Até não sobrar uma gota sequer
(Em minha boca)
Do inextinguível veneno





IDÍLIO



Antes de chegares eram brumas
Que depois viraram plumas
E flocos de amor que choviam

E tudo chovia
Os próprios verbos
Dantes tão impessoais
Choviam

No princípio eras o verbo
Que chovias meus desertos
E me amanhecias minhas trevas

Mas já havia um passado de ti nas nuvens
Um presente de ti nos rios
E um futuro de ti no mar

E nos clarões que se filtravam
Pelas frestas do entardecer
Ouvia-se o trovejar impiedoso da Parca:
“Íris éreis: ireis!”

Irias.





SAUDADE


O fruto das alegrias
Degustadas fora do tempo
É a alegria de um passado
Transformada em sofrimento
Pois ter saudade de um sentimento
É trocá-lo por outro menor

Passatempo de um tempo que não passará
Contratempo de um tempo que não mais soou

Fóssil de lágrimas de gozo e de dor
Retidas na lama de uma paixão morta
Nos estuários do instante na eternidade
Reluz como estrela distante
A iluminar o que lá não mais se encontra

Como a luz de uma sombra
Ou sombra de luz?





GRÁVIDO


Caiu-me a cabeça
Retive os meus pés
Até perder o chão
E rolar por aí
Como um louco varrido
Para baixo do tapete

E tu ainda me dizes
Não ter paixão perto de mim:
Terás razão?

Verdejantes campinas
Dos tempos que não flori,
Jardins da saudade
florescerão por si?

Nunca fruto acabado,
Eu, a semente,
Tornei-me madura e suficiente

O suficiente
Para apodrecer e cair
Do homem para o meio
E do meio para o fim





SONHO DE MARIA


Eu te procuro na cama
E te descubro num bar:
Eu sonho ser teu cavalo
E te carrego p’ra casa;

Eu te persigo na chama
Quando teu sopro me abrasa;
Se sou distante, me chamas,
Se próximo, te inflamas,

Em teus rugidos me calas,
Em meus relinchos te açoito,
Em tua juba me agarro,
Com minha crina te enrolas.
Depois, me soltas, te esvais...

E, nos silêncios em volta,
Me deixas louca a sonhar!





À ELEITA


Sonho... e eis que vens chegando
clara, quente e suave,
espalhando-te como uma brisa
cálida por entre os jardins.

E vens devagar e docemente
(posto que és encanto),
pintando com tua luz
os quadros mais serenos.

Aqui, meu coração abre os olhos,
espreguiça as asinhas
e canta para ti uma canção de boas-vindas,
acordando os sonolentos seres
que sonhavam contigo
na longa noite doravante conjurada.

Uma vaca oferece à sua cria
o morno leite que embranquecestes
e muge feliz para ti.

Milhões de flores acendem suas cores
para enfeitar tua chegada,
e as recompensas com o teu perfume
que atrai miríades de borboletas,
e elas ensaiam para ti a dança do amanhecer.

Enquanto isso, um homem não mais noturno
vai sorvendo aos poucos
o teu hálito que exalas do orvalho nas pétalas,
e ele desliza sorrateiro (para não acordar-se)
do sonho solitário para o sonho de ser teu.

E, dado que o possuístes por completo,
já podes despertar-me para ti:
Porque me fizestes definitivo azul:
agora sou manhã!





(por Waldísio Araújo)




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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:40




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