POEMA À DERIVA
A pena sulca solitária superfície
Por onde coração de poeta navega
Seu navegar não preciso
seu vagar
devagar
divagar
vagabundo
Por vagas
vagamente
vagarosas
vagar
Contra os ventos velozes e vorazes
Náufraga garrafa da poesia!
MAGNIFICAT
Outra volta em torno do terço
E do quarto e, em prantos,
Maria ainda aguarda enquanto
José se demora na mesa de um bar
Nesse milagroso altar,
seu sangue de aguardente
se tinge de limão
Mais cinqüenta e tantas contas,
E Maria dá-se conta de quanto
Com ele não se pode contar.
E no encalço de cada hora
Que se arrasta pelo subúrbio
José não está!
Jaz num outro mundo
– num copo de aguardente –
seu corpo de limão
Ora Maria,
Até que, tonta
De tanta oração,
Se torna José,
Perde as contas
E pede a conta em mais um bar.
ADJUTÓRIO
Para que trinta e quatro costelas
Se qualquer delas perfaz a mulher?
Trinta e três será mais lógico
Que contar trinta e quatro no dorso?
Dizer "Trinta e três"
Será mais fácil para auscultar
O tal Fôlego da Vida?
Que perdi junto com a sumida costela?
Serei um pouco menos alto ou
Pouco menos corcunda?
Um deus inteligente teria criado
Trinta e quatro seres belos
Todos mulheres
E o velho homem
Talvez se conquistasse
O que nunca terá sido:
O ser racional
Menos distante da terra.
FATO CONSUMADO
Diante do monumento
Que me contempla do meio da sala
Espero meu programa predileto
Que não perco por nada deste mundo
Assim como os biscoitos Farniente
Eis que se inicia! Eis que os identifico a todos:
Betty, a mocinha mais bela, a dos beijos ardentes
Nick, o herói mais valente, o do tiro certeiro
E o vilão mais malvado
(Negro, nazista, mexicano, o ateu)
Marximiliano Mashedowsky
Que, felizmente, tem sempre se dado mal
Hora dos comerciais e
Posso ver pela janela
Um corpo estendido
Perdido na dimensão do tempo
Coberto de jornais
Em que se estampa
(de longe se adivinha)
Conhecida propaganda
E em volta de que pululam
Policiais e populares
Enquanto os flashes pipocam
Futuras manchetes
De gratuito merchandising
Meus olhos voltam a encontrar
O meu olhar pela sala
Jajá recomeça o meu programa predileto
E a vontade de comer mais um pacote
diante do meu altar
O homem assassinado lá fora
Não mais terá a companhia dos transeuntes
Estes, curiosos, já terão retornado ao lar
Para esperar sentados pelo consumar do fato
Comendo biscoitos Farniente
POEMA SAZONAL
(À professora Zenáurea Campos, in memorian)
Um ser que pousa
cantando
significando
uma nova estação
repousará conosco por uns dias,
visitará nosso ninho
e educará nossa ninhada.
Irá embora e,
talvez,
voltará
nos bons tempos
que virão.
Se não a matam
(se não a esquecem),
uma única e eficiente
necessária e suficiente
andorinha
faz infinitos verões...
ou infinito
o verão.
(por Waldísio Araújo)
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