MÚSICA
Um louco ressonava
mansamente
sobre o piano
no centro
da sala de ser e de estar
Despertado
levanta-se
e canta
e golpeia
e ausculta
uma tecla
qualquer
É lá:
Sente-se lá
Senta-se lá
Confere: lá!
Ouvimos a
voz-do-espírito-a-nos-ordenar-silêncio
e lá quedamos nós,
Beethoven, o Surdo
recém-evocado
e um lúcido louco emudecido
SÉTIMO SELO
Um pouco mais
para deter-me a pena,
para calar-me a boca,
para buscar um lance,
para lançar a sorte,
para mover a peça,
um pouco mais para enganar a morte...
Tudo o que conquistei
sorrir, sangrar,
sonhar, subir,
perder, chorar,
sentir, aprender,
desesperar,
tudo isso e seus inexoráveis
opostos e conseqüências
foi por um triz.
Somente um pouco
só mais um verso
e nada mais!
CORAÇÃO DE VIDRO
(A Vavá Meló, que se dedica a reerguer em vidro,
mais frágil que a original,
a antiga arquitetura de Senhor do Bonfim)Transparece-te, Arte
reflete-te das arestas
dos sonhos de Vavá Meló!
Gritem solitários sobrados
em frágeis palácios de infância
que a memória esculpe do pó!
Fechadas fachadas:
vontades de adentrar
Com flores nas lapelas
com círios nas capelas...
antigos pensamentos nos espiam
das vítreas janelas
Frágeis sonhos
do vidro inquebrantável
(partituras de cristal)
partem para sempre
e doces vãs cantilenas vão...
Vai! vai, melodia!
faz das noites mais um dia
reflete-te num só silêncio
O silêncio soluçante
do silício!
SINFONIA PASTORAL
Singela rosa
Airosa orvalhada sua
Canta sua lágrima de alegria
Suave doce passarinho sorve
Boi muge lá distante
Nuvem desenha o mugido em sol
E se dissolve, feliz
Folha cai
Vento é quem quis
Folha cai
E vai correndo pelo chão
Folha cai
– cai, não cai?
Não cai, não cai, não!
Nuvem sustenida
Cai em si
E poliniza o ar
Vento veio lá do norte
E cai sobre a planta
Vento desfolha
Vento deflora
Vento desorvalha sem dó
Flores despetalam
Fáunica flora refloresce
E dorremifaniza-se em lá
Planta dança-se
Cai, não cai?
Folha-se no chão
E sai voando
SONATA A KREUTZER
A batuta adeja num céu de sons
convocando os demônios da música
e acenando
para que cheguem mais perto
do violinista e penetrem-lhe a alma
O maestro é distante
é aguda razão
e o solo solitário
sentimento grave
agita-se contra a tosse
(oposta à poesia que
vinda não se sabe de onde
expande a ausência da amada
da primeira clave ao derradeiro tempo)
E tange a curva superfície
das cordas
amarra a bruta harmonia
nos acordes
que entrelaçam melodias e noites
amores e dores
da sonata no soneto
e da capo
A platéia aplaude o primeiro a bater palmas.
(por Waldísio Araújo)
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