Enquanto o caos segue em frente

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Tenho um sorriso bobo,
parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo.
(Renato Russo)

 

Do cartaz do filme O cavalo de Turim, de Béla Tarr.

Do cartaz do filme O cavalo de Turim, de Béla Tarr.

Nada se sabe sobre o cavalo que, açoitado por um camponês, foi abraçado por Nietzsche numa rua de Turim pouco antes de este filósofo entrar em seus dez anos de silenciosa loucura, seguida de morte. O filme O cavalo de Turim, de Béla Tarr (1911) mostra os seis primeiros dias do retorno do cavalo e seu dono para casa, situada em meio a uma terra, vida e humanidade inóspitas. Em nenhum momento Nietzsche ou Turim aparecem, apenas são mencionados no início por uma voz misteriosa, ficando-nos a impressão de que a película realiza um salto da realidade para a ficção.

Ao que parece, o problema que o filme se propõe enfrentar (a nosso ver, com pleno sucesso) é o de manter-se na existência fictícia para a qual a narrativa o lançou. É que a obra de arte não envolve somente imitação da existência real, mas é ela própria realidade e existência na medida em que, como tudo o que existe, é mais ou menos intensa (possui impulso) e mais ou menos fugaz (possui duração): em outras palavras, ela é ao mesmo tempo luta, conquista, dissolução e resistência. Como as efêmeras ‒ esses insetos cujos machos adultos vivem apenas algumas horas após acasalar e as fêmeas sobrevivem somente até pôr os ovos ‒ a existência da obra de arte, em cada ato estético, se limita a concentrar vitalidade suficiente para aprisionar o espírito humano na prisão das belas formas, embora por um brevíssimo instante.

Durante os seis dias de um enredo quase sem peripécias, não há sinal de conexão com uma história externa ao filme, o qual, por isso mesmo, pulsa e respira seu próprio ritmo. Mas trata-se do ritmo que todos conhecemos, o do dia a dia e sua absurda falta de sentido ‒ tão absurda que sequer a percebemos como tal apesar de tão estupidamente óbvia em sua absurdidade. O camponês, sua filha e o cavalo definharão por todo o tempo sua monótona “existência”. Não obstante, é justamente “existência” o termo que une o filme à obra de Nietzsche, como uma grande homenagem ao filósofo que, em A origem da tragédia (1872), escreveu:

Diz a lenda antiga que o rei Midas perseguiu o sábio Sileno na floresta por longo tempo e não conseguia capturá-lo. Quando, porém, o fez, perguntou-lhe qual dentre todas as coisas era a melhor e para o humano a mais importante. Teimoso e impassível, calava-se Sileno até que, torturado pelo rei, falou finalmente, com um sorriso pálido: Raça mísera e efêmera, oriunda do acaso e do sofrimento, por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti melhor não ouvires? O melhor de tudo é para ti impossível de conseguir, é o não ter nascido, não ser, nada ser. Em seguida a isso, o melhor seria logo morrer.

Para Nietzsche (e, antes dele, Schopenhauer), essa é a verdade do mundo, a única, o resto é mentira; logo, o pensamento de que no fundo tudo está bem ou vai acabar bem é uma deslavada mentira que contamos para nós mesmos e em que, paradoxalmente, acreditamos com sinceridade. Em termos civilizacionais, isso quer dizer que quanto mais nos dedicamos à verdade (coisa que fazemos há mais de dois mil anos) mais descobrimos que o absurdo, a ignorância, a dor, o tédio, a solidão, a morte estão por toda parte e que jamais serão suprimidos. Apenas inventamos belas mentiras (a lógica, o conhecimento, o prazer, a diversão, o amor, a vida eterna, Deus, a liberdade, a humanidade…) com as quais conseguimos sorrir, ter esperanças, nos sentir importantes no universo, sermos algo aparentemente maior que essas construções caóticas, mortais, breves e, acima de tudo, insignificantes, que se disputam esse grão de poeira a que chamamos Terra.

Nada é permanente no universo, nem os conceitos, nem os valores, e toda lucidez é apenas invenção ou adesão inconsciente a alguma bela mentira. Nossa crença no progresso, razão e tecnologia nos ilude, impede momentaneamente que vejamos que a cada instante tudo o que ganhamos por um lado perdemos ou perderemos por outro, que a contabilidade existencial jamais fecha a nosso favor e que quanto mais muralhas construímos para nos proteger mais forte é a fúria das tormentas que nos envolvem. E assim, no filme, uma tempestade de vento acompanha a vida rotineira dos dois camponeses e seu cavalo, onipresentemente: é o caos, do qual tudo vem a ser, de que tudo se constitui e onde tudo se dissolverá ‒ caos que não é necessariamente desordem, mas sobretudo criação e ânsia louca por existência intensa, impulso insaciável por incremento de força, potência inesgotável que pensamento e linguagem não podem expressar porque trata-se do Ilimitado, do Indeterminado, do Inefável. Daí que de nada adianta pretender resistir ao tempo pela construção de coisas aparentemente imutáveis como as palavras, os conceitos, o eu, as teorias, as crenças, as instituições, as pátrias, os deuses, pois tudo, absolutamente tudo, está imerso no Abismo que a tudo constrói, constitui e destrói incessantemente, eternamente, inexoravelmente.

O próprio filme é uma dessas tentativas de resistência, mas num sentido afirmativo e estético ‒ que é, aliás, o que diferencia um Nietzsche de um Schopenhauer. Com efeito, os “planos” (intervalos entre um “corte” cinematográfico e o seguinte) são longos, repetitivos, enfadonhos, insistentemente supérfluos, como os longos minutos em que esperamos que a filha vista e desvista o pai ou em que ambos equipem e desequipem a carruagem, em sequências de ações que nada apontam para um acontecimento dentro ou fora do filme, apenas acentuando seu ritmo lentíssimo e sua utilidade irrisória para a economia geral da narrativa. E no entanto nada está em repouso, o vento não para de soprar, as folhas não desistem de surgir e desaparecer na superfície da tela, os humanos não abdicam de se modificar, o mundo não deixa de revoltar-se, como uma imensa goela de Munch sobre a ponte do real, embora nada seja acontecimento, exceto o exercício do poder, ao qual só nos resta rendermo-nos ou resistir ‒ o que, em última instância, dá no mesmo pois, afinal, o poder perpassa todas as coisas, todas elas o exercem indistintamente, dando-se a uma coisa o que se tira de outra. Nesse contexto quase sem texto, a recusa do cavalo em sair do lugar é um ato de heroísmo e reivindicação de valor; e assim as coisas todas se comunicam mesmo sem palavras.

Aliás, pela palavra é justamente como elas NÃO podem comunicar-se, ou melhor, elas somente podem falar de sua solidão incurável, e não é à toa que toda comunicação humana é, no filme, uma ordem imperiosa ou o avatar mais comum do imperativo, sua mais definida e menos criativa palavra: a ameaça. Como diz o próprio Nietzsche, não falamos o individual, só falamos o coletivo, o comum, o vulgar, o baixo, o vil, o que todo mundo (não cada um) pode entender. Acresce que o comunicável compartilhável pelo homem não funda um amor entre os homens, logo um comércio interindividual, justamente porque ele não pode chegar ao “individual”, ao que interessa amar e ser amado: em outras palavras, o individual, o amável, o que não se pode possuir porque não se pode alcançar para entregar ao outro é o Inexprimível.

A solidão é, assim, constitutiva do homem, e é por isso que o filme abandona Nietzsche em Turim no momento em que ele se abandonou a si próprio à loucura. Nesse sentido, a frase popular que diz que “ninguém é uma ilha” é estupidamente falsa, o contrário é que é inescapável: a humanidade é um vasto e estéril arquipélago abandonado para sempre entre trilhões de estrelas habitadas ou não. Somos ilhas ocultas para nós mesmos e nosso “próximo” e “semelhante” é tão estranho para nós quanto qualquer provável disforme e silencioso alienígena. Para todos os outros somos totalmente inatingíveis, inalcançáveis, incognoscíveis e inconsequentes, e “autoconsciência” socrática só faz sentido se Sócrates não se referia a ela e, portanto, se não for verdade que a virtude seja aprendível e ensinável. Por isso, tudo, absolutamente tudo no filme vive em seus compartimentos, das personagens às coisas (a carroça, o cavalo), suas ações mais intensas consistindo apenas em não funcionar, como a lâmpada que por si própria insiste em não se deixar acender: afinal, se tudo sai de sua prisão corriqueira é apenas para mudar de prisão ou retornar a uma prisão anterior. Então, para que sair, se não existe fuga possível?

As personagens humanas do filme só falam mediante ordens ou ameaças, e os animais e objetos falam bem melhor, ou seja, param de fazer o que os homens deles esperam que façam. Portanto, toda fala é inútil, mesmo o grito de dor mais insano ‒ além de que o que as palavras diriam não tem potência ou importância suficientes para modificar o eterno curso das coisas, o fluxo incessante e dissolvente. A música, talvez o possa, mas a do filme é propositalmente repetitiva como o ritno mesmo das coisas: as quatro estações, a vida e a morte, o germinar e o semear, o amor e o ódio, tudo isso e seus infindáveis ritmos perfazem uma duradoura e insistente monotonia que, ao final, acabará num nada cercado de plenitude por todos os lados, num universo que começa branco, termina negro e evolui nos infinitos tons de cinza que outrora foram luminosidade e um dia serão escuridão, eis tudo. Não é à toa que o filme é em preto e branco: para que servem cores, se elas não nos mostram o interior das coisas e este não deve sequer saber o que vem a ser cor e luz e alma? Tudo está, decerto, em movimento, mas este se sujeita a ritmos, mas estes são solenes, lentos, arrastados, eternos, pequenos volumes feitos de planos intermináveis, tanto no cinema quanto na vida.

Quanto mais nós, os vivos, nos especializamos, mais sucesso temos em nos impôr diante dos outros humanos e das outras espécies, mas quanto mais sucesso temos mais insistimos em tentar perpetuar essas especializações ‒ e isso é nossa perdição porquanto o caos segue roendo, tragando, corroendo, erodindo, massacrando de fora para dentro e de dentro para fora de toda “estrutura” que se queira “permanente”. Na verdade, quanto mais estático e sólido for o ser que resiste, e quanto mais rotineira a sua vida sem aventuras, mais fortemente será castigado pelo vento eterno que a tudo dissolve. Talvez, pois, a melhor filosofia seja mesmo o Taoísmo, para o qual as coisas devem deixar-se levar na corrente, que não resistam; o sábio taoísta, contudo, é impotente para fazer o que diz dever fazer, e isso é belo na medida em que os chineses (não os gregos) poderiam ter inventado a tragédia ‒ que nós, não obstante, não soubemos preservar.

Resta-nos apenas, como saídas dignas, resignarmo-nos (como os camponeses do filme), entregarmo-nos à morte (como o cavalo), dizermos verdades que ninguém entenda (como o comprador de aguardente) ou enlouquecermos (como Nietzsche). Ao invés, preferimos povoar bares e igrejas, onde nos entorpecemos o corpo de veneno químico (como o pai, no filme) e a alma de veneno moral (como a filha), e isso para o século XIX, pois nosso brilhante século XX acabou por inventar duas extensões da burrice coletiva, a televisão e as redes sociais ‒ e, com efeito, a maioria de nós aceita acordar à força, pôr-se a trabalhar por quase todo o dia, retornar exaustos para a TV ou à conversa fútil nas redes sociais, dormir para refazer-se para o trabalho do dia seguinte, acordar para trabalhar, sair para trabalhar, estudar para trabalhar, rezar para trabalhar, trabalhar para trabalhar, nada fazer de importante (e chamar a isso “trabalhar”), trabalhar diariamente o horror do sem-sentido, a repetição, a repetição da repetição, a repetição do horror, o horror da repetição que se repete interminavelmente, horrivelmente…

Repetindo-nos, parecemos retornar sempre a nós mesmos e enfim fundarmos um eu e um nós. Gostaríamos acaso de retornarmos eternamente nessa “vida” que levamos? Ou seríamos capazes de, ao contrário, fazer com que o ir e vir da repetição se quebrasse? E deveríamos realmente querê-lo? E quereríamos verdadeiramente querê-lo? Vemos que os seis dias do filme parecem apenas continuar infindáveis dias passados e estender-se em intermináveis dias futuros, mero prolongamento, simples segmento finito que se repete sobre uma reta infinita como a medi-la em ambas as direções. Mas os dias sucedem-se às noites e as estações não passam de quatro, mas tampouco param após a quarta delas, de modo que se poderia pensar num eterno retorno nietzscheano de tudo.

Mas é incrível como ninguém percebe que “tudo” é uma palavra difícil, talvez tão sem sentido quanto a palavra “nada”: o que se repete é o todo ou são todas as coisas? Se todas elas se unem como por um fio e, para Nietzsche, não há os opostos que seriam as pontas do fio, à maneira de uma origem rompida e um triunfo final (não há o bem e o mal, o paraíso perdido e retomado, a verdade esquecida e reconquistada), nada obriga o fio a traçar um único e predeterminado desenho no espaço. Aliás, não passa de um desenho que cada ente veria de um ângulo diferente e, assim, ter-se-ia a cada vez um todo diferente, de modo que a única verdade é que a mentira sempre triunfa desde que se a encare como indiscutível verdade (que, portanto, conscitui-se na mais terrível das mentiras), como a mentira sumamente verdadeira que um vizinho do camponês filosoficamente lhe conta enquanto lhe compra aguardente (vê-se que ele não é cristão: contenta-se com álcool para mentir melhor); para ele, tudo foi nivelado por baixo, desde séculos, tudo foi expropriado em troca da ilusão de imutabilidade do mundo e dos valores, e mundo e valores se dissolvem um no outro. A “realidade” tem-se tornado in-abalável e in-crível, e o próprio filme dela sequer necessita: a lâmpada se recusa a acender mesmo que lhe demos combustível; o cavalo recusa-se a andar mesmo que o culminemos de alimento; o camponês, a filha e o cavalo partem para sempre e retornam sem ter ido a lugar algum, e não irão mesmo que a tempestade cesse, e quando ela cessar não haverá com isso bonança.

As coisas têm vida própria e por isso agonizam, mas sempre mostrando que insistem em existir em seus limites, aliás como toda obra de arte. É que apenas a arte (não necessariamente o belo) pode redimir o homem e as coisas, pois está para além da mera linguagem. Ela e o filme expressam a solidão de tudo o que é vivo mediante planos longos mas encantadores. A existência pode deveras não fazer sentido, e seria bom que políticos, religiosos, cientistas e jornalistas o pressentissem melhor; mas a arte, e somente ela, é capaz de dar valor não somente à vida mas à própria morte em vida a que chamamos “existência”. Uma obra de arte é um todo que envolve uma cosmologia e uma cosmogonia, com suas leis próprias e relações com outros universos igualmente feitos de ordem e confusão, caos e cosmos (chaosmos, como diz Deleuze). Por isso as ações do filme, iguais a cada dia, se passam em seis dias, e não cinco ou sete: provável referência ao Gênesis, à cosmogonia, à semana original na qual Deus teria criado o mundo e, no dia seguinte, descansado. Os camponeses do filme não têm descanso, seus seis dias são eternos, mas o sétimo deve dissolver-se para que saiamos do cinema e voltemos ao mundo ‒ este familiar chaosmos em que, na cidade de Turim (tão absurda quanto todas as outras), o filósofo Nietzsche encontra a loucura e por ela se apaixona. Agora estamos num mundo também fascinante mas com racionalidade suficiente para que, independentemente um do outro, o genial cineasta húngaro Béla Tarr e, digamos, o excelente cineasta brasileiro Júlio Bressane (que dirigiu Dias de Nietzsche em Turim, de 2001), com leituras e escritas radicalmente diferentes associaram entre si planos longos e monótonos, a cidade de Turim e o gênio e a fraqueza de Nietzsche.

A vida e o mundo não deixam de ser belos só por serem destituídos de sentido. Os rios não deixam de ser impetuosos só porque irão todos desaparecer no mar. As palavras não deixam de ser cortantes só por não falarem do mais profundo de nós. Os pensamentos não deixam de ser impressionantes só por não sabermos jamais de onde eles vêm.

Waldísio Araújo
www.waldisio.com

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2 comentários a “Enquanto o caos segue em frente”:

  • waldisio, estou precisando muito de sua ajuda, sei que podes me ajudar, qual seu contato? o meu email é esterdiem@gmail.com

  • Amei..”A vida e o mundo não deixam de ser belos só por serem destituídos de sentido. Os rios não deixam de ser impetuosos só porque irão todos desaparecer no mar. As palavras não deixam de ser cortantes só por não falarem do mais profundo de nós. Os pensamentos não deixam de ser impressionantes só por não sabermos jamais de onde eles vêm.