Waldísio Araújo

MÚSICA HOMÓFONA OCIDENTAL NA IDADE MÉDIA

(LEITURA DE ARTIGO DE N. DUFOURCQ)

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FONTE:


DUFOURCQ, Norbert. Música homófona no Ocidente (séculos I a XV). In: ENCICLOPÉDIA Delta-Larousse: volume IX. Trad. Renato Almeida. 2.ed.rev.aum. Rio de Janeiro: Delta, 1967. p 4425-34.


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RESUMO:


Entre os séculos IX e XV, convivem no Ocidente dois tipos de música homófona (este termo, oposto a "polifônica" e quer dizer que é executada apenas uma linha melódica ao mesmo tempo): a música cristã (o canto gregoriano, voltado para a elevação das almas e, por isso, privado de instrumentos e da dança) e a música profana (canto do povo e dos senhores) embora, paralelo à sua vigência, nasça e vá firmando-se aos poucos a música polifônica (Ars Nova).


O canto cristão, solidário com a liturgia, originou-se em fins do século I sob a inspiração de tradições locais diversas (cânticos, salmos, hinos etc.) e enriqueceu-se, com o triunfo do cristianismo (século IV), de novos temas aplicados para enfeitar a voz (intróito, ofertório, comunhão, sanctus) e novos métodos que regem o canto (a antífona, dois coros que se respondem, formados quer por fiéis quer por fiéis e por jovens clérigos: canto salmódico, canto responsorial); tudo isso foi recolhido, expurgado e codificado no fim do século VI por Gregório Magno no sentido de banir as modulações acariciadoras do ouvido - reforma que triunfou no início do século IX no Ocidente (ao passo que a música bizantina tomava impulso no Oriente), inaugurando a idade de ouro do canto gregoriano. Este, essencialmente diatônico, rejeitou qualquer alteração, mesmo a "sensível" atual, mas como cada nota da escala melódica podia servir de ponto de partida para uma nova escala, resultava daí uma riqueza modal infinitamente variada, pois o lugar dos tons e dos meio-tons achava-se a cada passo modificado com relação à tônica; os modos gregorianos reduzem-se a quatro ("autênticos: ré, mi, fá, sol) que, pelo alongamento para o grave de um quarto, deram origem a modos derivados ("plagais", em número de quatro); a primitiva notação "neumática", conjunto de pontos, acentos e sinais que permitia reencontrar a melodia já recebida por transmissão oral, foi sendo desenvolvida a partir do século XI, no sentido de indicar com mais precisão a altura dos sons e, no séuclo XII, essa notação "quadrada" vai sendo substituída pela "proporcional", que indica também a duração dos sons; quanto às formas musicais, estas dividem-se em dois gêneros: recitativos ou salmodias (recitados recto tono e declamadas sobre a mesma nota) e os cantos melódicos (onde os vocalizos ocupam o primeiro lugar: antífonas, hinos, kyrie, glórias, credos, tratos, aleluias, sequências, tropos); finalmente, esse canto, oposto à música "medida", não se inscreve em nenhum quadro preciso, de modo que é essencialmente um perpétuo recitativo de ritmo livre, ainda que apresente certa regularidade e andamento. O apogeu do canto gregoriano durou até o século XIV, quando o contato com a música profana "medida" e com a polifonia o irá corrompendo pouco a pouco, apesar de tentativas de reforma pelo Concílio de Trento (mas já em pleno século XVI, século de ouro da polifonia).


O canto profano tira do canto gregoriano, através do teatro, seus modos, fórmulas e, frequentemente, ritmos, embora o texto seja agora em verso - quadro rígido ao qual deve corresponder uma forma rígida: o compasso ou, ao menos, a música medida; desse ambiente, a música do povo irá anunciar, nos séculos IX e X, a canção de beber, a de dança, a de amor, as pastoris - estruturas que, no século XII, será retomadas e aperfeiçoadas pela música dos senhores ("troveiros" do Norte, "trovadores" do Sul, "Minnesaenger da Alemanha), cujas canções são difundidas pelos "jograis" ou "menestréias" os quais, acompanhados de instrumento, espalham-se pelas cidades e pelos campos, tais canções tratam de diversos temas (histórias cantadas, pastorais, canções de amor, canções satíricas, canções piedosas etc.) e derivam quer da litania (canções com refrão, pastorais) quer do rondó (virelais, redondilhas, baladas) quer da seqüência (lais) quer dos hinos; quanto à música, esta traduz o ritmo da poesia, preparando o advento da música medida e ajudando a eclosão da tonalidade do "maior", introduzindo "alterações" e não recuando diante da "sensível" atual.

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COMENTÁRIO:


A homofonia ocidental, sobretudo o Canto Gregoriano, desmistifica o caráter de decadência cultural que se queria atribuir até recentemente à Idade Média. Com efeito, há muito de encanto, delicadeza e liberdade nessa forma de música que resiste aos séculos porque se queria eterna. E faz lembrar formas atuais que compartilham com ela (apesar de independentemente) a liberdade (como o Jazz) ou a íntima ligação com a palavra escrita (como a Bossa Nova e a chamada MPB). Isso não impede, contudo, de lamentar-se o quanto o gregoriano cerceou a livre expressão da corporeidade ao evitar o êxtase dos sentidos e a dança.



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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:32




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