(LEITURAS DE OBRAS LITERÁRIAS DO AUTOR)
O NOME DA ROSA (Il Nome della Rosa, 1980)
Na Itália, durante o primeiro terço do século XIV, uma abadia beneditina é escolhida por Guilherme de Baskeville, enviado do Imperador Ludovico, o Bávaro, como sede de um encontro entre legações papais e imperiais - que deverão discutir as condições de uma visita segura de Michele de Cesena, geral dos franciscanos, ao Papa em Avignon, João XXII. Tal encontro, porém acaba por fracassar, em parte pela ocorrência de vários crimes na abadia, todos eles relacionados com um misterioso livro proibido, mas ambicionado, escondido num recesso ignorado da biblioteca da abadia, na verdade um labririnto construído à imagem do mapa do mundo. Encarregado de desvendá-los, Gulherme e seu discípulo e escrivão, o jovem Adso de Melk, acabam descobrindo que se devem à manutenção inescrupulosa dos segredos da biblioteca por um monge cego, Jorge, que, tendo encontrado a hoje desaparecida segunda parte da Poética de Aristóteles (dedicada à comédia), oculta-a por temor de que o elogio do riso pudesse vir a ser erigido em filosofia, pondo em crise, assim, a ordem divina). Descoberto, ainda que mediante indícios falsos, Jorge provoca, antes de morrer, um incêndio que destrói a obra e, com ela, a biblioteca e toda a abadia.
COMENTÁRIO:
Num clima altamente verossímil e num estilo de quem conhece a fundo os textos da Idade Média, Eco insere em sua obra, de forma inteligente e bela, uma personagem inusitada: a segunda parte da Poética de Aristóteles, dedicada à comédia e (caso tenha sido realmente escrita) desaparecida desde a época helenística. Vívida reconstituição do final do medievalismo, a obra conta ainda com uma tese semiótica cara a Eco: somente existem signos e signos de signos. A personagem Guilherme é apenas um grande decifrador de signos e, portanto, criador de mundos concordantes ou não com o mundo "real" (tão fictício quanto eles). Um excerto mostra bem o teor filosófico e estético da obra:
Porque a Bernardo não interessa descobrir os culpados, porém queimar os acusados. E eu ao contrário encontro o deleite mais jubiloso em desvendar uma bela e intrincada intriga. E será ainda porque no momento em que, como filósofo, duvido que o mundo tenha uma ordem, consola-me descobrir, se não uma ordem, pelo menos uma série de conexões em pequenas porções dos negócios do mundo. Por fim há provavelmente uma outra razão: é que nesta história talvez estejam em jogo coisas maiores e mais importantes que a batalha entre João e Ludovico... (ECO, Umberto. O Nome da Rosa [Il Nome della Rosa]. Trad. A. F. Bernardini e H. F. de Andrade. Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 446)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:27
abqtzseo (wbwdvg@cjdtke.com) escreveu, no dia 26/01/2012, às 11:05:03: