(LEITURAS DE OBRAS DO AUTOR)
O LICENCIADO VIDREIRA (In: Novelas Exemplares):
Um jovem de família humilde busca fazer sua vida pelas letras, entregando-se à instrução pelos livros e, mais tarde, às viagens. Um dia, porém, uma mulher, buscando deixá-lo apaixonado por ela, dá-lhe uma droga que, ao contrário do efeito esperado, torna-o doente e, após convelescença, louco: ele passa a acreditar que é feito de vidro. Contudo, começa a mostrar uma lucidez fora do comum na avaliação crítica que faz aos vários grupos sociais, criando para si uma fama de sabedoria que acaba por atraí-lo ao ambiente aristocrático da Corte. Ao curar-se de sua loucura, porém, decepciona-se com a parca recepção pública ao seu talento natural; abandona, então, a Corte e vai à Flandres, onde busca e encontra a fama, mas agora pelas armas.
COMENTÁRIO:
Tema frequente em Cervantes, o da diferença prática entre dedicar-se à carreira das armas ou à das letras. Parece concluir que, num mundo hipócrita, há mais chances em obter-se sucesso pelas armas que pelas letras e conhecimento (no Dom Quixote, radicalizará o caráter dissolvente da sociedade contra todo idealismo letrado ou militar). Entre outras coisas, a novela (hoje chamaríamos “conto”) documenta uma época em que a loucura ainda não estava dissociada da vida da razão. Como para seu contemporâneo Shakespeare, o louco exerce função didática e orienta a razão para a sabedoria. Somente pouco mais tarde, com Descartes, loucura e razão se dissociariam de forma radical.
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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:26
Kariny dias (karinyaisha@hotmail.com) escreveu, no dia 03/04/2009, às 14:20:21: