(LEITURA DE ARTIGO ENCICLOPÉDICO ANÔNIMO)
FONTE:
LITERATURA fantástica. In: CONHECER Nosso Tempo. São Paulo: 1974. p. 756-9. [Fratelli Fabri, Milão, 1972]
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RESUMO:
O realismo fantástico caracteriza-se pela ambigüidade, já presente no próprio nome do gênero, resultante da redefinição dos contrários "realidade" e "fantasia" num conceito mais amplo, que os engloba de modo a inaugurar um tempo e um espaço ambígüos, apresentar aconteciemntos incompatíveis com a relação causa-efeito e introduzir coisas inexplicáveis numa realidade bem comportada: o fantástico irrompe, então, bruscamente, na realidade cotidiana, mas confundindo-se com esta; inverte-lhe a ordem natural, mas não instaura o inverossímil. O fantástico manifesta-se comumente no conflito de um mundo dilacerado entre instituição e marginalidade, racionalidade e irracionalidade, realidade e irrealidade, normalidade e patologia ou paranóia etc., numa tensão permanente em que o elemento renegado e ignorado busca desesperadamente demonstrar sua existência, ainda que à custa da destruição e fragmentação da realidade que o rejeita ou, em casos extremos, do próprio homem (a exemplo de O Médico e o Mosntro, de Stevenson; Frankenstein, de Mary Shelley, e várias obras de Nerval, Sheridon, Kafka ou Maupassant), não tendo as forças desconhecidas, que promovem a ocorrência do fantástico, nada de irracional (por exemplo, a maldição sobre uma família), mas se aproximam às vezes da lógica do paranóico ou são motivadas por razões e intenções não conhecidas. Como nos sonhos, o mundo do fantástico desdobra-se numa absoluta coerência interna (absurda apenas se comparada à racionalidade normal) e instaura-se sobretudo no mundo da literatura, onde toma como referencial a "realidade" da linguagem, já que o objeto literário é, ele próprio, ao mesmo tempo, real e irreal: a realidade da literatura é ser a fantasia da linguagem, é dizer algo mais do que as próprias palavras exprimem, de modo que o centro explícito da literatura fantástica - o questionamento do limite entre o real e o irreal - é próprio de toda literatura em geral; destarte, a literatura contemporânea substitui, como elemento fantástico, os monstros e fantasmagorias pela própria linguagem (O Escaravelho de Ouro, de Alan Poe; No Labirinto, de La Robbe-Grillet; Exame da Obra de Herbert Quain e A Biblioteca de Babel, de Borges). Além disso, a própria crítica da realidade, normalidade e racionalidade, presente no fantástico da linguagem, pode desviar-se para a crítica das istituições e das estruturas sociais (Pedro Páramo, de Juan Rulfo; Cem Anos de Solidão, de García Marquez). Finalmente, chega-se à introdução do fantástico dentro do próprio fantástico; ou seja, voltando-se para a própria linguagem o fantástico acaba por criticar a si mesmo, o que reintroduz a realidade na literatura, mas não ingenuamente: em Os Prêmios, Cortázar sobrepõe à história de uma absurda viagem uma narrativa sem "enredo", que a rejeita.
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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:26
Isabeaux (isabelxxiv@gmail.com) escreveu, no dia 07/09/2009, às 03:47:15: