Waldísio Araújo

NOÇOES BÁSICAS DE LINGÜISTICA

(LEITURA DE ARTIGO DE E. P. ORLANDI)

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FONTE:


ORLANDI, Eni Pulcinelli. O que é lingüística. 8.ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. Coleção Primeiros Passos, v. 184.


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RESUMO:


O homem sempre teve curiosidade por conhecer a linguagem e suas relações, mas somente no começo do século XX fez dessa curiosidade uma ciência, que tem como objeto a linguagem verbal (oral ou escrita) humana, a qual se expressa por signos, pelos quais o homem se comunica, representa pensamentos, exerce poder, elabora cultura e identidade etc. Mas os signos não são apenas verbais, de modo que há uma ciência dos signos em geral (verbais ou não verbais), a Semiologia - da qual a Lingüística, enquanto ciência dos signos verbais, é parte.


Precursores da Linguística científica são:


a) as gramáticas gerais do século XVII. São racionais, regidas pela lógica e visam uma língua universal e não ambígua. O modelo é a Gramática de Port Royal, de 1690. Sua grande contribuião foi a de pensar a linguagem em sua generalidade, não mais se contentando com a descrição de uma qualquer língua particular;


b) as gramáticas comparadas do século XIX. São históricas, se preocupam com as mudanças e os princípios que as regem. Seu modelo é o Sistema da conjugação da língua sânscrita, comparada ao grego, ao latim, ao persa e ao germânico, de F. Bopp (1816). Pelos parentescos entre várias línguas, descobre-se, por comparação, sua evolução como transformação de uma mesma língua de origem (o indo-europeu, no caso) da qual elas derivariam. Busca-se agora não mais a perfeição, mas a origem.


Como metalinguagem, a linguística tem desenvolvido uma linguagem formal (não a ordinária), diferente da de outras ciências humanas e que chega ao seu maior rigor formal com Chomsky.


O pensamento linguístico tem seguido duas tendências, segundo se considere que a língua se desenvolve de acordo com seus próprios principios ou de acordo com o exterior histórico-social:


a) o formalismo busca o que é único, universal, constante, ou seja, o percurso psíquico da linguagem;


b) o sociologismo busca o múltiplo, diverso e variado, isto é, o persurso social da linguagem.


A ciência linguística moderna começa com o Curso de Linguística Geral, de Saussure, publicado em 1916. Os níveis de análise linguística são para ele a fonologia, a sintaxe, a morfologia (todas elas partes da gramática) e a semântica. Seu objeto é a língua, que é um sistema de signos, os quais são associações de um significante (imagem acústica MENTAL) e um significado (conceito, também mental), ambos interligados arbitrariamente, convencionalmente e, em seguida, diferencialmente (seu VALOR é relativo e negativo: "cão" significa "cão" porque se opõe a "gato", "rato" etc.). Saussure distingue ainda língua (sistema abstrato, fato social, geral, virtual) e fala (realização concreta da língua pelo sujeito, circunstancial, variável e, portanto, excluída da linguística). Também distingue sincronia (estado atual do sistema da língua) e diacronia (sucessão de diferentes estados da língua), esta também fora da Linguística.


Os sucessores de Saussure chamarão "estrutura" ao que Saussure chamava "sistema" (querendo dizer que cada elemento da lingua somente adquire valor enquanto relacionado com o todo), e "estrutural" ao metodo que analisa essas relações. Uma das formas linguísticas do estruturalismo é o funcionalismo, que valoriza as funções desempenhadas pelos elementos liguísticos nos níveis fõnico, gramatical e semântico. Mas as oposições estruturais não dão conta de toda a riqueza de relações entre unidades (por exemplo, no nivel semântico, nenhum traço distingüe "amor" de "afeição", assim como, no nivel morfológico, "cantei" de "cantava"). Então passaram a trabalhar, além das oposições (eixo paradigmático, que organiza na língua as relações em que as unidades se SUBSTITUEM: "tomo" / "como"), com as relações de contraste (eixo sintagmático, em que elas se COMBINAM: "c"+"o"+"m+"o"). Contudo, o estruturalismo nunca consegue dar conta da análise dos significados, mas apenas dos significantes. E também a sua vertente funcionalista entende as funções de formas diferentes, como no caso das funções constitutivas da linguagem, que se relacionam ao papel dos elementos da comunicação: funções expressiva (centrada no emissor), conativa (no receptor), referencial (no objeto da comunicação), fática (no canal que liga emissor e receptor), poética (na mensagem) e metalinguística (no código); Além disso, outra forma de funcinalismo atém-se aos "desvios" (erros, inovações, gírias etc.), que crêem satisfazerem a certas funções da língua: brevidade, assimilação, diferenciação, invariabilidade, expressividade - que o falante supriria por não estar encontrando na língua.


Outra teoria geral da linguagem contemporânea, mas americana, foi o "distribucionismo" de Bloombield, de natureza também estrutural mas ligada (contra a instrospecção) ao comportamentalismo (behaviorism), fundado no esquema estímulo-resposta. Propõe reunir um conjunto de enunciados emitidos pelos falantes num determinado momento (o "corpus") e buscar seu modo de organização, sua regularidade, detectada na distribuiçao das unidades em seus contextos linguísticos, independente de seu significado (o que liga essa escola a tendências mecanicistas).


Ajudaram também a desenvolver a linguística os chamados "círculos linguísticos": o de MOSCOU (Jakobson, 1915), dos formalistas russos, buscou encontrar leis para a própria produção poética, sobretudo para as narrativas; o de PRAGA (Troubetzkoy, Karcevsky, Jakobson, 1928), acentua a ligação entre linguística e poética, ligação que se perde com o Círculo de COPENHAGE (1931), que apenas leva em conta a lógica matemática em busca de uma teoria universal, separação bem expressa na diferenciação de Hiemsley entre denotação (sentido primeiro) e conotação (sentido segundo), que cinde plano lógico e plano afetivo, razão e emoção; esta tendência é continuada pelo círculo de VIENA, que visa depurar a linguagem, mesmo a cotidiana, de todo elemento irracional, criando a divisão entre os enunciados dotados de sentido e os dele desprovidos, excluindo da linguistica fenômenos importantes como o equívoco, o nonsense ou a ambiguidade e erradicando ainda mais a afetividade.


O domínio estruturalista durou até a década de 50, quando Chomsky prega a autonomia do nível sintático, central para a explicação da linguagem, pretendendo dar conta de todas as frases gramaticais, isto é, que pertencem à língua, buscando um número limitado de regras (uma "gramática geracional") que possa GERAR dedutivamente um número infinito de seqüências frasais concretas, às quais se associa uma descrição e que define a "competência" de um falante ideal em relação a uma língua com infinitas frases. Abandona-se assim a descrição em favor da explicação cientifica. Agora a linguagem é tomada como inata ao homem, assim como a razão, fazendo tocarem-se a universalidade lógica e os fundamentos biológicos. Tudo isso exige uma escrita linguística formal para a teoria gerativa. Segundo essa "gramática transformacional", há regras sintagmáticas (que geram estruturas abstratas) e regras de transformação (que as convertem nas frases da língua), as últimas podendo ser obrigatórias ou facultativas. Assim, além da "estrutura superficial" (a das unidades nas frases realizadas), há uma "estrutura profunda" (em que se representam as formas abstratas), relacionada à anterior mediante transformações. Surge assim uma "teoria-padrão" que tem um componente central (o sintático, que tem uma "base" que gera as estruturas profundas e "transformações que levam às estruturas superficiais) e dois componentes interpretativos (o semântico, que incide sobre a "estrutura profunda", e o fonológico, que incide sobre a "estrutura superficial"). Contudo, a inclusão da "estrutura profunda" no modelo é um ponto crítico devido à questão do significado, pois não dá conta de saber-se se a estrutura profunda é sintática ou semântica. Contra a prioridade da sintaxe, surgiu a dissindencia da Semântica Gerativa, que considera que sintaxe e semântica se confundem no nivel profundo, campo do que se relaciona à interpretação da frase (na verdade, para eles a semãntica é que tem o poder gerativo). Temos agora uma divisão entre uma semantica interpretativa (Chomsky) e uma semantica gerativa (G. Lakoff).


Ocorre que tanto Saussure quanto Chomsky deixam de lado a situação real de uso (a fala ou o desempenho) em favor do virtual e abstrato (a língua e a competência), restringindo-se a uma linguistica do significante ou imanente (que é a tendência formalista, dominante no século XX). Mas há desenvolvimentos que se voltam para a sistematização dos usos concretos da linguagem - heterogêneos e diversos - e que privilegiam as noções de dados, contexto de situação, de sociedade, de história. Ora, no que diz respeito à natureza das relações entre sociedade (cultura) e linguagem (se uma é causa ou efeito da outra), há controvérsias que fazem surgir metodologias diferentes:


1) a sociolingüística vê as estruturas sociais como causa das manifestações lingüísticas (como no caso dos usos do registro alto "nós vamos" ou baixo "nóis vai", que dependem de profissãom, educação, nível de renda); mas não desenvolve a lingüística propriamente dita, apenas correlaciona as análises dela com os fatores sociais;


2) a etnolingüística vê a lingua como causa das estruturas sociais. A linguagem não seviria apenas para designar uma realidade preexistente, mas organiza (constitui) para nós o mundo em que vivemos. Segundo a norte-americana hipótese Sapir-Whorf, "a linguagem interpenetra a experiência de tal forma que as categorias mais profundas do pensamento são diferentes nas diferentes culturas";


3) a sociologia da linguagem, segundo a qual não há separação entre ações lingüísticas e ações sociais, ambas constituintes. Ela não fala em funções, mas em poderes da linguagem: magia, adivinhação, rituais, felicitação, condolências, exaltação etc.


Aos poucos vai-se concebendo que a lingua não serve apenas como instrumento do pensamento nem tampouco para apenas transmitir informações, mas é um todo muito mais complexo; e vão se evidenciando teorias que levam em conta tanto a relação linguagem/pensamento quanto a relação linguagem/sociedade. O estudo da significação vai adquirindo muito maior importância, a exemplo da Pragmática, que estuda as relações entre os signos e os interesses de seus usuários. Por outro lado, a teoria da enunciação mostra como a linguagem tem ainda a função de constituir o sujeito, sua identidade individual ou social (neste caso - de Bakhtin - a palavra está tão determinada por quem a emite quanto por aquele para quem é emitida). Já a análise de discurso considera como primordial a relação da linguagem com a as condições exteriores de produção do discurso (o falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social), representadas por formações imaginárias: a imagem que o falante tem de si, a que tem do seu ouvinte etc. Trata-se de uma teoria critica da produção da linguagem, que passa da análise da frase para a do texto (oral ou escrito)... Em sua linha americana, considera a frase um discurso curto e o discurso uma frase complexa, o que permite manter a teoria e o método distribucionais, com pouca ênfase na significação. Diferentemente, no caso europeu insiste-se em não se ver a língua como sistema abstrato ou como código, mas leva-se em conta locutores com história e inconsciente, imersos em questões de poder e relações sociais; o discurso não é aqui geral como a lingua (ou a competência) nem individual como a fala, mas é visto como prática regular, como quaisquer outras práticas sociais, de modo que a produção da linguagem pelo sujeito correspondem às condições determinadas em que se produziu.


A evolução da lingistica tem sido feita de continuidades e rupturas, mas entrevêem-se linhas gerais:


a) a formalista-logicista (Gramática de Port-Royal, gramática gerativo-transformacional);


b) a histórica (gramáticas histórico-comparadas do século XIX, Etnolingüística, Sociolingüística);


c) reflexões preocupadas com a fala, o estilo e o diálogo, com valorização do poético (teorias da enunciação, teorias do texto e da conversação)


Confrontada com essas linhas, temos a análise de discurso, que se recusa a trabalhar com regras e com a gramática. No entanto, a primeira linha citada permanece dominante e influente, até coercitiva, com sua tendência à linguagem maquinal contra o nonsense, a dispersão e o equívoco da linguagem cotidiana - que recusa a total transparência e unidade nas coisas humanas e que sabe que a linguagem nao é somente ordem e princípio de classificação.



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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:24




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CONTRIBUIÇÕES:


Waldisio (waldisio@hotmail.com) escreveu, no dia 09/01/2012, às 20:09:07:

Realmente, Sr. Pandolfi, nem uma palavra sobre Wittgenstein ou mesmo sobre as intuições de Nietzsche. Talvez isso se deva a um excesso de cientificismo que partiria do pressuposto de que aqueles que não foram em sua época "carimbados" academicamente como "linguístas" seriam meros "filósofos", no máximo teriam algumas colaborações esparsas a fazer.

eduardo pandolfi (eduardichavespandolfi@hotmail.com) escreveu, no dia 13/12/2011, às 16:06:48:

É lamentavel que não se faça referncia aos jogos de linguagem de Wuttengstein,que é a chave para a soluçõ do problema da lingua e da sociedade

ANTONIO (antonioabencoado@hotmail.com) escreveu, no dia 25/08/2010, às 12:38:03:

PARABÉNS PELO RESUMO, FOI MUITO UTIL P/ MIM, CONTINUE ASSIM QUE VC SERÁ MUITO BEM SUSCEDIDO! DEUS ABENCOE À TODOS!

nubia (nubyaangel@hotmail.com) escreveu, no dia 05/06/2009, às 14:28:30:

oi etou presisando com urgencia do assunto desvios padrão geral. de preferencia que mandem em formato de slide... pra mim agradeço desde já

michelle (mick.corinthiana@gmail.com) escreveu, no dia 31/03/2009, às 13:56:24:

preciso de um texto curto com bastante linguaguagem formal !!! é urguente