(LEITURA DE ARTIGO DE SUSANNE DESAN)
FONTE:
DESAN, Suzanne. Massas, comunidade e ritual na obra de E. P. Thomson e Natalie Davis. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 62-96.
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RESUMO:
Aprofundando a obra de G. Rudé e Ch. Tilly, Thompson e Davis acentuaram o papel da cultura como agente histórico, particularmente no que diz respeito à ação violenta das massas, e, ao mesmo tempo, libertaram-na de um determinismo imposto pela infraestrutura: para ambos os autores (ainda que Thomson privilegie mais o esquema marxista de luta de classes e a constituição destas no processo de luta, inovando ao admitir uma auto-constituição), as massas, longe de determinadas rigidamente por forças externas, exerceram papel ativo essencial na constituição histórica de sua própria identidade, o que envolve a consideração complementar tanto do sentimento de legitimidade de sua ação violenta quanto a definição, por parte da comunidade, dos objetivos, motivações e atos de tal ação, que é vista, assim, como racional e inata.
Destarte, em Moral economy of english crowd, Thomson mostra-nos como, na Inglaterra do século XVIII, uma estécie de concepção econômica paternalista, ou "economia moral", servia de legitimação para a imposição ilegal, por parte da massa, de preços "justos" para os grãos, cuja alta escassez se atribuía a uma violação de direitos tradicionais da comunidade por uma economia de mercado livre (capaz de desviá-los para regiões de maior demanda) preconizada pela pequena nobreza; esta foi obrigada, por isso, a longo prazo, a manter alguns aspectos do modelo tradicional como prevenção contra a violência; contudo, a excessiva acentuação da oposição comunidade-pequena nobreza levou Thomson a minimizar as oposições de poder dentro da própria massa.
Por sua vez, em Rites of violence, Natalie Davis viu nas guerras francesas de religião do século XVI a defesa, por parte tanto de católicos quanto de protestantes, de um corpo social purificado, de concepções compartilhadas comunitariamente e que influenciavam ainda a escolha do momento de desencadear a violência e o caráter ritual desta; no entanto, Davis exagera a concepção do conflito como manutenção da unidade e pureza social, o que impede uma melhor consideração sobre as relações de poder, deixando-nos a perguntar se, ao contrário, a violência não forçaria a redefinir as tradicionais definições de comunidade, se não surgiria antes como instrumento de reivindicação de poderes e fariam mesmo transcender seu caráter ritual.
Em ambos os autores, a violência poderia ser vista como força transformadora (e não somente fortalecedora) das atividades comunitárias, mas sob a condição de se incorporar, numa abordagem estrutural, tanto a ênfase sobre o significado e a mentalidade quanto o estudo dos mecanismos do poder e da trasnformação - complemento do exame centralizado na comunidade e na legitimidade; isso porque os padrões de ativismo não são necessariamente conciliadores, estáticos ou universalmente interpretados do mesmo modo, e os sistemas culturais podem veicular poder e disseminar discórdia.
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COMENTÁRIO:
Descreve-se aqui mais um episódio da já longa história de dissolução da visão marxista de história humana como conflito infraestruturalmente determinado. Desan fala-nos de autores que já não vêem a violência como necessariamente desagregadora das relações sociais, mas como aglutinante; por outro lado, critica os mesmos autores por reduzir o papel transformador da violência; de modo que temos então, para esta, três efeitos possíveis sobre as relações sociais: dissolvê-las, fortalecê-las ou modificá-las.
Ora, se nossa interpretação estiver correta, Desan peca por insistir numa espécie de atomismo da ação, a qual sujeitar-se-ia à clássica crítica de Hume à causalidade e à substancialidade. E por que não, ao contrário, imaginar os conflitos sociais como configurações das interações complexas entre forças, ao invés de relações causais entre agentes substancializados?

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:22
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