(LEITURA DE ARTIGO DE YVES LACOSTE)
FONTE:
LACOSTE, Yves. A geografia. In: CHÂTELET, François (dir.). História da filosofia: idéias, doutrinas: v. 7: a filosofia das ciências sociais: de 1860 aos nossos dias [Histoire de la philosophie: idées, doctrines: la philosophie des sciencis sociales]. Trad. Hilton Ferreira Japiassú. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. p. 221-74. [Paris, Hachette, 1973]
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RESUMO:
Ao negar em sua prática a interação que defende teoricamente entre fatos físicos e fatos humanos (negação que busca fundamentar-se na organização do saber, mas que começa a ser questionada pela Filosofia), a Geografia mostra sua fraqueza epistemológica e provoca a indiferença dos filósofos. Contudo, os problemas atuais da crise das relações homem/natureza e da desigualdade social têm sido expressos em conceitos e raciocínios geográficos pelos mass-media, permanecendo a Geografia escolar e universitária atrasada em fazê-lo. Com efeito, esta, ao refletir de forma mais metodológica que epistemológica, apenas tem oscilado entre o estudo das pequenas extensões (que parte da Geografia mas que despreza as realidades sociais) e o das grandes extensões (que parece dissolver a Geografia). Tal situação deriva das relações entre as ciências e as ideologias, que impedem que o espaço seja objeto de reflexão e construção social do saber.
Isso é exemplificado pela elaboração do mapa, o qual - resultado de uma operação longa e dispendiosa - é usado por e para o aparelho de Estado. Ora, o mapa aponta-nos o problema epistemológico fundamental da Geografia: a mudança de escala corresponde a uma mudança do nível de análise e deveria corresponder a uma mudança no nível de conceitualização; e não há nível privilegiado de análise, pois cada um permite tanto apreender quanto ocultar fenômenos cuja importância não podemos prejulgar a priori. Logo, devemos situarmo-nos nos diversos níveis e realizar sua articulação - ainda que, no plano da ação, tenhamos que privilegiar alguns deles em função das estratégias utilizadas. Assim, ultrapassar-se-á uma Geografia acadêmica que, herdeira de La Blache, apenas privilegia um nível de análise e que não dá conta dos problemas atuais.
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COMENTÁRIO:
No fundo, parece que para os governos a Geografia erigiu-se virtualmente em Praxeologia (no sentido de Von Mises), ao passo que o mundo acadêmico a trata como uma miscelânea confusa que engloba, entre outras coisas, uma espécie de História espacial e considerações generalizantes sobre o espaço geográfico, além das inevitáveis considerações praxeológicas.
Contudo, Lacoste não parece questionar se acaso seria epistemologicamente válido promover a articulação dos diversos níveis de análise geográfica, ao invés de simpesmente liberar o manejo da conceitualização: cada conceito é que imporia, de acordo com sua compreensão, a extensão do nível ao qual se referiria, tornando-se o campo geográfico um tecido de infinitas possibilidades de recorte e equiparando-a à História (mas em termos predominantemente espaciais, não temporais). Claro que, para isso acontecer, deve-se esperar o sempre lento rompimento das resistências universitárias, principais barreiras contra o despontar das futuras praxeologias, herdeiras das atuais e epistemologicamente incoerentes "ciências sociais".
Finalmente, Lacoste tem razão ao defender que não há nível de análise privilegiado (tampouco pode haver, a fortiori, uma hierarquia deles). Mas isso impõe dizer que TUDO é geográfico e que, portanto, uma Geografia Geral não é algo epistemologicamente válido.

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:22
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