(LEITURA DE CAPÍTULO DE CHÂTELET)
FONTE:
CHÂTELET, François. Plato. In:______ (dir.). História da filosofia: idéias, doutrinas: vol. 1: a filosofia pagã: do século VI a.C. ao século III d.C.[Histoire de la philosophie idées, doctrines: la philosophie paîenne: du siècle VIe avant J.C. au IIIe siècle aprés J.C.]. Trad. Maria José de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. p. 65-120. [Paris, Hachette, 1972].
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RESUMO:
Mediante a exigência de definição rigorosa daquilo que se fala, Sócrates mostrara ser a violência o critério vigente de verdade da opinião. Coube a Platão, porém, constituir um saber que, a partir do discurso integralmente justificado, servisse de critério de valor das opiniões e das práticas. Ora, a desordem advinda do fim da Idade de Ouro (quando os deuses abandonaram a terra) só poderá ser minimizada caso se entregue o governo aos filósofos, ou seja, àqueles que conhecem a organização racional, justa, apreendida no domínio das idéias através da dialética ascendente, e que pode, assim, manter a Justiça (definida como harmonia entre o todo e os componentes da cidade e em conformidade com a organização do cosmos e da alma). Ora, as idéias existem separadamente, já que suas características são antitéticas às das coisas sensíveis, mas a natureza de sua relação com estas últimas precisa ser demonstrada, o que é feito de forma lógica (as idéias são, em sua hierarquia, condições dos juízos duravelmente verdadeiros) e ontológica (elas foram usadas, originariamente, como modelo e causa do mundo sensível). Logo, o sensível é um misto no interior do qual os vestígios do inteligível podem ser localizados, de modo que a ciência encontra-se, assim, justificada. Finalmente, uma filosofia da natureza e uma filosofia da história apontam para a missão da filosofia: manter a racionalidade — último legado da Idade de Ouro — contra o poder dissolvente do devir. Assim, o idealismo platônico estabelece o primado da filosofia ao tempo em que representa (em seu domínio, objetivos e métodos) a filosofia originária. Logo, baseada quer no situamento histórico quer em insuficiências lógicas, toda refutação de Plato pressupõe o próprio platonismo, o qual apenas poderá ser refutado mediante a interrogação àcerca do primado da filosofia.
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COMENTÁRIO:
A definição de filosofia como "discurso integralmente justificado" e o caráter nuclear e originário do platonismo talvez possam alegrar os discpulos de Whitehead (para quem toda a história da filosofia é uma gigantesca "nota-de-rodapé" aos escritos platônicos) e também a muitos de nossos pós-modernos (que podem contra ele apontar suas baterias desconstrucionistas), mas deixam perplexos os admiradores dos filósofos pré-platônicos, doravante alijados e imersos numa "pré-história" da filosofia. Contudo, trata-se de um problema talvez meramente conceitual e que só merece maior preocupação por parte de nossas instituições acadêmicas, que precisam, a todo custo, definir o que chamarão de "filosofia" a fim de melhor excluir do campo do saber todo o resto. No caso de Châtelet, esse "resto" parece poder ocultar, por enquanto, as possibilidades de uma próxima redenção do pensamento, doravante desgarrado da obrigação de ter que justificar tudo o que diz e de abdicar de tudo aquilo que não consegue expressar em palavras, o que tem sido um empobrecimento do real.
A meu ver, a definição de Châtelet pode unir-se de alguma forma à de Deleuze (a filosofia como criação de conceitos) na produção de um pensamento capaz de vir a utilizar-se de conceitos que não mais deixem tolher seus movimentos. E tudo indica que o caminho está aberto, desde Nietzsche, a essa "gaia ciência" capaz de, antiplatonicamente, libertar o pensamento e, com ele, o corpo que pensa. Tratar-se-á, então, de uma "pós-filosofia"?
(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:14:19
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