NAUFRAGAR É PRECISO; VIVER...
A leitura é sempre um inimigo em potencial quando nos impede de vivenciarmos o mundo com nossos próprios sentidos e de assim aderirmos às coisas espontaneamente. E é também perigosa para o pensamento, pois sempre se pode incorrer na tentação de lermos o mundo de acordo com a gramática de nossos autores prediletos, criando, destarte, uma tradução por demais artificial para o "grande livro do universo" — o qual não é escrito em nenhuma das linguagens conhecidas (apesar do otimismo dos modernos, que o viam como algo escrito em linguagem matemática).
Não obstante, a leitura tem o mérito de poder seduzir e atrair-nos para a visão de paisagens insuspeitadas, pois seus autores têm formas de cegueira diferentes das nossas, e muitas vezes não nos dão soluções eternas, mas problemas mais ricos e férteis. Há, pois, nas entrelinhas de tudo o que lemos, uma alteridade irredutível sempre à espreita para ver-nos naufragar nos próprios escolhos (escolhas!) que criamos com nossas costumeiras formas de ler rigorosa e meticulosamente a vida.
E por que não aprendermos a (con)viver com os erros e ilusões que constituem toda a história cultural da humanidade?
(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:15:21