CRER... PARA VER
Imagem e palavra são dimensões independentes uma da outra, mas eternamente se digladiam e se amam (se encantam mutuamente) quando se encontram no universo do signo: a tentativa sempre frustrada de tradutibilidade apenas intensifica a inesgotabilidade de ambas...
Tente-se descrever verbalmente um quadro de Goya, ou pictoricamente um poema de Baudelaire, e sentir-se-á que o fracasso atesta a grandeza da tentativa, mas também a sua vanidade: ambas as obras falam de formas diferentes do que não se pode falar e, fazendo-o, denunciam esse mesmo não-dito como algo mais importante que o que se poderia dizer.
Poder-se-ia invocar o referente (a coisa expressada e sua verdade) como juiz, mas não existe PARA NÓS tal coisa, ou seja, nós a construímos justamente com palavras e imagens.
A fotografia de um tigre expressa algo de sua força, realmente, mas tente-se pronunciar lenta e intensamente a palavra "tigre" e sentir-se-à que o próprio nome ruge, faz-nos sentir melhor sua presença espalhando-se pela selva da imaginação enquanto o tigre jaz ali, mudo, sobre a relva que o pintor tingiu sobre a tela. Por outro lado, o cansaço da caminhada vã expresso no romance de Graciliano Ramos torna-se brando diante da jornada forçada sob a luz difusa do Sol no quadro de Portinari. E tudo isso pode ser seu contrário também, pois não vale mais nem menos o que é radicalmente diferente de tudo o mais...
Dizem que uma imagem vale mil palavras. Grande tolice, posto que não se trata de coisas tradutíveis uma pela outra. Ademais, ambas se referem a contextos, e estes já são formados por imagens e palavras. Finalmente, o que existe é apenas relações entre signos, abaixo dos quais apenas intuímos caladamente a fome inefável, a fome de expressão, a fome força e beleza.
Mas as imagens dizem tanto de tudo...
(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 09/08/2008, às 13:42:41