Waldísio Araújo

SONHOS REAIS DE NETTO CASANOVA

FUNDINDO REALIDADE E ILUSÃO

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Quadro de Netto CasanovaNo surrealismo, a alma humana revela-se como plenitude operada e mantida pela imaginação, faculdade que torna possível a continuidade entre homem e universo e que abraça nos sonhos, clímax de sua potência criadora, o que aparenta ser seu maior inimigo: o sentimento de realismo.


Com efeito, nada nos parece mais real que um sonho, enquanto o sonhamos, e nada melhor dilui qualquer diferença entre corpo e alma. Não é à toa que nosso corpo se agita, sua e grita durante os pesadelos sem sequer perguntar-se se estamos dormindo ou não. E pode ser que a própria vigília não passe de uma forma mais sutil de vida onírica, ela que também se baseia em jogos de criação, busca e destruição de sentido. O corpo sempre sonha. Como escreveu André Breton, no primeiro Manifesto Surrealista, de 1924: Envelheço; e talvez isto seja sonho, ao invés da realidade à qual creio ser fiel; e talvez a indiferença com que contemplo o sonho seja aquilo que me faz envelhecer.


E que dizer da pretensa distância entre verdade e ilusão?


As obras do pintor Netto Casanova são oníricas, como há muito de onírico nas visões, surrealistas ou não, de Bosch, Grünewald, Goya, Blake, Redon, Ernst, de Chirico, Magritte, Tanguy, Miró, Dali, Chagall... Nelas, se reúnem as associações de imagens, os chistes, as sublimações, os impulsos da libido, as doenças do Ego, as repressões do Superego, enfim, as sutilezas de tudo o que deságua no oceano sem fundo que Freud, qual Cousteau das profundezas do homem, tentou, talvez em vão, perscrutar.


O surrealismo de Netto é, ao menos aparentemente, paradoxal – como o deve ser, no fundo, toda a arte que se preze –, e isso por dois principais motivos inter-relacionados. O primeiro e mais óbvio é que a paisagem onírica é mesclada de elementos ligados à religião, o que torna para nós confuso saber onde termina o artista engajado na sua arte e começa o visionário cristão. Ora, religião cristã e valorização da razão, ainda que não necessariamente contraditórias, são opostas, visto que a religiosidade é um sentimento, logo implicita uma faculdade inimiga daquela que quer-se a única legítima ou, no mínimo, como em Platão, condutora das demais. No entanto, razão e sentimento já estão presentes na constituição dos sonhos e jamais deixaram, ambas, de serem opressoras em comum do subconsciente e suas exigências, ainda que a religiosidade mais intensa comercialize com o êxtase e mesmo com a loucura. Ademais, que seria a civilização ocidental mais que hipervalorização de cristianismo e razão? E a recente invenção do homem, a acreditarmos em Michel Foucault, não teria sido estruturada justamente sobre a não menos recente morte de Deus, reafirmando de alguma forma este? (logo, este não viveria, de alguma forma, imanente no subconsciente da própria modernidade?). Na verdade, as diversas formas de surrealismo jamais se distanciaram muito do religioso e não é à toa que a última fase da pintura de Salvador Dali foi reencontro com este.


Outro aparente paradoxo é o da constante referência ao meio ambiente físico e cultural do Sertão nordestino do Brasil, o que parece trair um certo materialismo na visão de mundo do artista Netto. Contudo, a matéria e seus opostos, se é que estes existem, constroem os próprios sonhos – feitos pela inter-relação entre os neurônios a partir de elementos baseados no mundo “real”, os quais, regidos por não se sabe que leis, associamos na criação dos seres oníricos, tudo isso contra as categorias do pensamento, conduzido ou não pela razão. E sempre sonhamos com a perversão da realidade, como o buscam fazer, em vigília, as mais tenras crianças, os loucos, os alucinados, determinados grandes pensadores (Stirner, Nietzsche) e artistas (Goya, Van Gogh, Artaud) e, talvez, os homens pré-históricos, que pensavam pela proto-razão (visto que a razão também tem sua história). Logo, a realidade é postulada pelos próprios sonhos! Quanto à imaginação, mesmo que soterrada, exprime-se (faz parte de sua essência exprimir-se), age, conspira, explode, sonha ou enlouquece, mormente quando se tenta fazê-la calar... É ainda a Breton que invocamos: Amada imaginação, o que mais amo em ti é que jamais perdoas.


Religiosidade cristã num ambiente nordestino... Vejamos o quadro que reproduzimos acima.


A seca é parte dos pesadelos da terra e do povo, os quais, fundidos, buscam na religião o consolo ou, na pior das hipóteses, a saída da vida, talvez para outra vida na morte (acaso não faz parte do onírico esta busca de fusão de contrários?). Um homem vestido de terno-de-reis contempla a paisagem... ou faz parte dela... ou é o próprio artista a representar-se num jogo de espelhos eterno cuja luz ilumina o mundo de um ser alheio ao Sol platônico do Bem, do Belo e do Verdadeiro. E esses insetos gigantescos a chafurdar por entre as rochas? Ou será que tudo o que os cerca é que está em miniatura? E aquele arco a flutuar no céu? Será o pórtico do Paraíso? Em caso afirmativo, encontra-se a paisagem do lado de fora? ou do de dentro? Aliás, existe, nesta arte, diferença entre interior e exterior, o Eu e o mundo?


Tudo aí faz lembrar os quadros intitulados Tentações de Santo Antão, presentes nas iconografias dos diversos surrealismos que a história da arte tem produzido, de Hieronnymus Bosch a Salvador Dali, mas num cenário regional, árido como as areias do Egito, onde aquele Santo teria vivido suas fantásticas visões. O subconsciente e seus conflitos projetam-se na paisagem do Sertão nordestino, mas o corpo e suas necessidades têm suas prerrogativas: a fome resolve-se em visões de abundância, sonhada ou reprimida; férteis e sexuadas, as pedras jorram leite. Dir-se-ia que o inconsciente tem ideais e que a paisagem física e cultural (logo, histórica) é vista para além do espaço, do tempo, das categorias e princípios do entendimento e dos ideais da razão, como contraponto às concepções sistematizadoras de Kant. Quase diríamos “intuição pura”, caso isto fizesse algum sentido.


Há, por fim, uma grande mistério a desvelar nesse quadro surpreendente, e o silêncio pétreo da esfinge à esquerda, que certamente lhe conhece o segredo, apenas atiça o fogo do enigma e da curiosidade que lhe serve de combustível: por que a mulher-pedra encontra-se vendada? Para não servir de testemunha de um mundo alucinado? Para ocultar sua verdadeira face àqueles que buscam compreender os saberes e poderes que ela detém? Mas que representa a pedra-mulher em si mesma e para o quadro? A Grande-Mãe, potência fertilizadora a quem o Oriente antigo devia, em última instância, vida, morte e ressurreição?


Cremos estarmos diante de um artifício metalinguístico do artista para fundamentar sua obra no fato capital de que a natureza, quando reprimida, pune, castiga a razão cartesiana com clarezas e evidências radicalmente alheias às desta. Trata-se, pois, da própria imaginação, que, expulsa, pelos poderes da racionalidade, para as profundezas da terra (da mente), desta emerge, fertilizando a paisagem, ou seja, recriando-a.


Real e onírico, verdadeiro e ilusório, material e espiritual, natural e cultural, talvez o bem e o mal... e, fundindo a todos, a imaginação, que é não somente o fundamento óbvio das artes, como também o oculto das religiões, das filosofias e das próprias ciências – na medida em que, por exemplo, é por ela que se passa a descrer de Júpiter para acreditar em Deus; que se deduz da dúvida um “eu penso; logo, existo”, e que se “sabe” que por um ponto fora de uma reta pode passar-se apenas uma única paralela a esta... O que significa que a crença e a ficção estão na própria raiz de tudo o que chamamos verdade e realidade.


Diante disso, o surrealismo pouco se distingue, no fundo, de alguma forma de hiper-realismo. Os Sertões e a Bíblia, intermediados por Adous Huxley: na obra de Netto Casanova, as portas do paraíso e as da percepção encontram-se doravante escancaradas, como a significar que não há salvação fora da Arte, pois a imaginação jamais perdoa.



(por Waldísio Araújo)




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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:13:18




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