O FOTÓGRAFO SOB O ZOOM
A máquina fotográfica obedece a leis mecânicas e óticas; como o olho humano, submete-se à legislação natural sob pena de nada enxergar. O filme é semelhante à retina, a lente é cristalino, o clique não passa de uma piscadela... A diferença é que, por trás da retina, existe um cérebro, que controla um ser ao mesmo tempo visualizador e pensante; em suma, detentor de uma visão-de-mundo. O que quer dizer que tem idéias e, acima de tudo, a capacidade de transformar o mundo em obra de arte.
Às vezes, as idéias insistem em ser autônomas: é o “realismo”, a representação dos objetos como se sabe ou julga saber que eles são; de outro lado, temos o “impressionismo”, que teima em imitar o real tal qual os sentidos o apreendem: ou pintamos as distantes montanhas de verde por sabermos que esta é a cor da vegetação que as cobre ou as tingimos de azul por ser assim que nossos olhos as captam. Enfim, duas formas de expressar a cisão do ser humano, de sustentar a ridícula opinião de que corpo e alma, realidade e aparência, verdadeiro e falso, arte e vida são - tomadas duas - coisas diferentes, opostas e mesmo contraditórias.
Pois bem: há seres humanos com corpo-alma (neste sentido, iguais a todos os outros) dotado, como extensão de si próprio, do domínio sobre uma máquina que enxerga e registra o que enxerga. Os olhos dessas pessoas não somente capturam imagens, mas vêem, isto é, enxergam pensando.
A Cesário o que é de Cesário. Olhos, mente e coração pulsam, perscrutam, compreendem o mundo que vemos e conhecemos. Vimos e pensamos a minúscula poça d’água refletindo o universo e suas leis; uma velha mão, carcomida pela erosão do tempo, contempla, parece querer ressuscitar com sua longa vida, uma criança morta; por trás das bandeiras dos lençóis, uma quem sabe triste favela relê-se na feiúra inconsciente dos prédios que lhe tolhem a visão; impondo sua música aos séculos, surge Orfeu triunfante do tempo e da morte; uma quiçá pensante aranha constrói pacientemente um mundo; traindo o sentimento, dedos tentam deduzir uma rosa; por trás do olho-mágico da arte, o artista enxerga a si próprio, edifica para si sua casa; um ser (talvez mulher) banha-se numa luz enigmática; a presença ubíqua do sonho reflete a realidade ao distorcê-la; recém-formado do nada, alguém mergulha sua definição nas trevas...
Cesário acerta na mosca por pensar ao contrário o contrário do inseto: como a máquina fotográfica e o olho, inverte as imagens e a imaginação antes de entregar ao cérebro a realidade em sua posição normal. Parece a letra da canção Corrente, do Chico Buarque de Holanda: lida do começo para o fim, diz algo; do fim para o começo, diz o contrário, e os dois lados são verdadeiros, ainda que jamais complementares.
Por Platão, arte é ilusão; para Aristóteles, imitação; em Nietzsche, embriaguês... Para Cesário, todos estão certos, o que quer dizer que tudo está sutilmente errado: realismo versus impressionismo, máquina fotográfica contra olho humano, corpo diferente de alma... tudo isso não lhe parece fazer sentido. Ele simplesmente funde essas dualidades após colocar seus elementos face a face, como dois espelhos que se mirassem.
Poucas vezes, a história cultural recente tem contemplado um artista tão próximo do universal implícito nas coisas transitórias. Nada de poses, nada de culto ao passado, nada de lembranças guardadas para a posteridade. Esqueçam os casamentos e batizados... O bonito não interessa e o gosto é inimigo da arte. Como em Pablo Picasso, a realidade é confrontada com a imaginação e obrigada a explodir em pedaços pulsantes de vida.
Imagem do canto superior direito: "Retrato do Escritor Waldísio Araújo", por Marcos Cesário (2001)
(por Waldísio Araújo, escrito em 2001)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:13:15
Waldisio (waldisio@hotmail.com) escreveu, no dia 13/08/2008, às 17:24:15:
marina (e-mail anônimo) escreveu, no dia 13/08/2008, às 16:58:44: