SOBRE OS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001
(Republico aqui um artigo que (infelizmente) ainda julgo atual e que fala de algo de terrível que se encontra dentro de nós mesmos, no cerne de nossa civilização em colapso. Espero ser mais compreendido desta vez, pois anteriormente uns maus leitores viram neste artigo uma apologia à violência. Trata-se, ao contrário, de tentar reconhecer onde nossa própria cegueira nos ameaça de imergir um dia numa barbárie planetária.)
Sobre as vítimas do ataque terrorista ao World Trade Center, ocorrido há anos atrás, nada a comentar, morte é morte. Lamentamos. Contudo, toda morte é estranhamente diferente de outras e pode ensinar-nos coisas diferentes. A morte dos cidadãos presentes nos dois prédios ou nos aviões não faz sentido nenhum. Mas a dos terroristas faz, e muito.
Trata-se da morte por ideais, elevados para eles e abomináveis para o resto, mas – bons ou maus – significativos. No fundo, aquelas mortes falam (gritam!), negativamente, sobre a falta de ideais que assola o mundo ocidental de pelo menos um século e meio para cá: o “niilismo”, a vontade de imersão num nada sem crenças capazes de reinserir o homem numa vida dedicada à extensão e desenvolvimento de sua vitalidade e de seus potenciais.
O Ocidente não mais acredita em nacionalismos, religiões, socialismos ou idéias filosóficas. Ora, como disse o filósofo Sartre, só se é homem quando se está disposto a morrer por algo... O Ocidente é uma civilização que, por falta de fortes crenças, encontra-se em extinção. Os terroristas se mataram por ideais religiosos; os americanos jamais o fariam exceto por dinheiro (e dinheiro aqui não é crença, mas única realidade). São situações bem diferentes, e é significativo o fato de que os "idealistas" de hoje, os que ainda encontram motivos para dar a vida por ideais, sejam terroristas ligados a organizações representativas do sofrimento de povos dominados pelo poder ou pela cultura ocidentais, sejam eles filiados ao fundamentalismo islâmico – caso do Hezbolah ou do Taliban – ou a certas minorias étnicas ou nacionais – caso dos ativistas do IRA ou do ETA. Quanto aos ideais norte-americanos...
Nunca uma grande parcela do planeta foi dominada por uma cultura tão alheia à criação quanto a americana. Ela pouco criou, apenas financiou, injetou dinheiro (o que não lhes falta, e que eles adoram, é seu deus supremo, como diz aquela frase nas cédulas de dólar: In God we trust, "nós confiamos em Deus") na raiz das grandes descobertas e invenções, das grandes idéias e ideais, dos grandes homens e mulheres. Isso não é propriamente criação, é parasitismo travestido de mecenato.
Um bando de poucos terroristas suicidas – não uma nação, não uma superpotência – implodiu os símbolos das "criações" dos donos do mundo, feriu seu orgulho de concreto. Diante disso, o que fez um fracote que sua “democracia” elegeu presidente? Enfiou cabeça de bagre adentro a idéia de represálias ao simpático e indefeso povo iraquiano e a um governo laico que a grande potência ajudou a chegar ao poder quando lhe convinha.
No tempo em que havia a superpotência soviética, eles não ousavam interferir diretamente – simplesmente, como sempre, “financiaram” a reação afegã anti-soviética, contando ainda com a imprensa, a besta-fera do século vinte. Anteriormente, apoiaram a implantação do novo Estado israelense justamente no centro do barril de pólvora do Oriente Médio islâmico, somente para que servisse como cabeça de ponte e Estado-tampão contra a União Soviética. Chegaram a despejar duas bombas atômicas contra populações civis num Japão já quase derrotado, apenas com o fito de evitar que a potência rival (que já havia fincado pé na Europa Oriental e em metade de Berlin) tomasse conta também do império japonês no oceano Pacífico. Infelizmente (ou felizmente, sei lá), o Muro caiu e hoje os manda-chuvas enviam seus jovens ao Iraque para matar e morrer por nada ou quase nada e à custa dos pobres palestinos, cujas terras foram praticamente roubadas por Israel, e contra as miseráveis nações islâmicas.
O terrorismo é condenável, ao menos para nós e para a maior parte da fauna humana da Terra; mas tem lá suas razões, ao menos para os médio-orientais: o mundo muçulmano agoniza desde o fim da Idade Média, após ter sido uma civilização florescente e ativa... Ergamos “nossos” olhos para o céu: a maior parte das estrelas que nos orientam nestas noites ocidentais tem nomes árabes; nós contamos com algarismos árabes; nós sonhamos com mil e uma noites... e essa civilização enfraqueceu de lá para cá, por culpa do dinheiro, do comércio, da indústria, da ideologia ocidentais. Uma civilização avançada perdeu sua força física, direito de voz, armamentos à altura, riquezas; de nada dispondo para ajudar-lhes na luta, a saída encontrada foi, para alguns, o terror; mas contra sua religiosidade fanática e algo doentia há os mísseis das potências, teleguiados em direção a eles pelo dólar: Alá, o Deus único, terá que digladiar-se contra todos os deuses do cristianismo e do capital.
Os suicidas muçulmanos terão água e mulheres no Paraíso... os soldados americanos mortos no Iraque terão dinheiro? Aliás, terão mesmo “paraíso”, após fazerem da Terra um inferno, a serviço de uma consciência cretina? Em seus filmes de mal-gosto eles matam índios, alemães, japoneses, vietnamitas, mexicanos e próprios negros americanos... e sua imprensa nojenta busca fazer da guerra interna e da externa um filme.
Os Estados Unidos detêm poder em excesso. Sem o freio de outras potências não resistirão a impor sua vontade ao resto do Planeta, e novas guerras virão. Sua "democracia" funciona na vida do dia-a-dia do cidadão norte-americano, mas não funciona politicamente: um povo que é capaz de eleger presidentes imbecis como o cowboy Ronald Reagan ou como Bush pai e Bush filho, além de postular a candidatura de um atorzinho barato do tipo Schwarzenaegger, não deve saber muito bem o que vem a ser democracia. Apesar dos pesares de direita ou de esquerda, o povo brasileiro sabe eleger melhor seus representantes.
Em suma, a vitória de Bin Laden tem sido até agora completa: um bando de suicidas, em carne e osso, humilhou um coração de ferro e níquel, implantou no seio da superpotência o medo e a certeza de que a morte e a dor lhe cercam, obrigou-a a conduzir-se para a guerra e a despejar nela seus recursos... Enfim, colocou-a de olhos abertos frente ao abismo. Mais grave ainda, colocou em xeque sua democracia, ou seja (segundo eles mesmos), sua essência, na medida em que terão de alterar suas leis a ponto de não mais postularem uma liberdade e uma igualdade integrais. Os sonhos não mais poderão ser comprados por dinheiro, e é iniciada a idade de ferro, de fogo e de sangue, e os norte-americanos nunca mais terão paz, exceto se...
(por Waldísio Araújo. Escrito originariamente em outubro de 2001)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:13:10
Adão Lima (adao.lima36@hotmail.com) escreveu, no dia 05/01/2011, às 19:27:47: