Waldísio Araújo

UMA PARÁFRASE DO GILGAMESH

O MAIS ANTIGO E INFLUENTE DOS ÉPICOS

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Gilgamesh e os leõesGilgamesh oprime o povo de Uruk, cidade suméria que ele rodeou de muralhas e para cuja deusa tutelar, Inana, construiu suntuoso santuário. Criado pelos deuses e ele próprio um semi-deus, arroga-se o direito de convocar os jovens para os jogos e a guerra e as jovens para o amor, sem poupar sequer os filhos, filhas e esposas dos nobres – os quais, então, resolvem apelar aos deuses. A pedido destes, a Grande-Mãe Aruru, que criara o homem, faz do barro um ser, Enkidu, de formas humanas e força semelhante à de Gilgamesh, e o lança na estepe, onde passa a conviver com as feras, comportando-se como elas e protegendo-as dos caçadores.


Aflito e temeroso por vê-lo, e por ter suas armadilhas destruídas por Enkidu, um caçador vai a Uruk, a conselho de seu pai, procurar por Gilgamesh, que o reenvia para a estepe acompanhado de uma prostituta sagrada, Shamhat, do templo de Inana, encarregada de iniciar Enkidu na humanidade plena através do sexo. Junto à fonte de água em que as feras bebem, ela é orientada para que, ao ser vista por Enkidu, dispa-se, atraia seus instintos e se deixe possuir por ele. Ela o faz, e Enkidu deita-se com ela por sete dias e seis noites, após os quais seu corpo se torna ereto, seus passos mais curtos e seu entendimento mais amplo, e os animais agora dele fogem. A prostituta o conduz então a viver com os pastores, com quem ele aprende os usos da civilização e aos quais ajuda, protegendo seus rebanhos contra as feras.


Um dia um viajante, vindo de Uruk, descreve os desmandos e arbitrariedades que Gilgamesh comete ao exigir que as recém-casadas primeiro com ele se deitem. Indignado, Enkidu vai com a prostituta à cidade onde, na praça do mercado, provoca a admiração de todos. Ao ver que Gilgamesh dirige-se ao leito da deusa Inana, Enkidu barra-lhe a passagem e ambos se atracam numa longa e feroz luta em que a vitória tende francamente para Enkidu que, porém, reconhece o direito divino de Gilgamesh em reinar sobre o povo. Abraçam-se e tornam-se grandes e inseparáveis amigos, como Gilgamesh já previra em sonhos interpretados por sua mãe Ninsun.


*****


A vida civilizada na cidade enfraquece Enkidu, que em breve queixa-se de perda de vigor. Gilgamesh sugere-lhe então que ambos combatam o monstro Humbaba, que vigia a Floresta dos Cedros, morada dos deuses e trono de Inanna, e lhe impede o acesso. Enkidu opõe dificuldades, alegando ter visto Humbaba quando errava com as feras e sabê-lo uma criatura terrível, mas Gilgamesh argumenta que enfrentá-lo seria conquistar um nome contra o esquecimento dos homens sobre a terra. Enkidu aceita segui-lo e ambos preparam armas, recebem conselhos dos Anciãos e de Ninsun, e esta, adotando Enkidu como filho, intercede junto ao deus-sol Utu, conquistando-lhe o apoio.


Após ter deixado Gilgamesh recomendações sobre o governo da cidade, viajam longamente para oriente, com alguns jovens da cidade, até a entrada da montanha da Floresta dos Cedros onde ambos penetram após algumas hesitações. Depois de muito caminharem, pernoitam e têm sonhos, interpretados como propícios. Mais tarde, durante o dia, Gilgamesh começa a abater cedros e isso atrai Humbaba, que contra eles investe com fúria e os combate com a ajuda de suas sete auras, que lhe dão poderes. Em situação desfavorável, Gilgamesh – que já havia astuciosamente tirado as auras do monstro em troca da promessa de casá-lo com suas irmãs – invoca Utu, e este envia contra Humbaba ventos fortes que o imobilizam, deixando-o à mercê dos heróis,. O monstro implora por sua vida, oferecendo-se em troca como escravo, mas Enkidu alerta para que não se confie nele. Decapitam-no, em seguida, e dedicam-se a abater cedros na montanha.


Ao retornar da expedição, Gilgamesh lava-se e veste-se para apresentar-se diante de Uruk, provocando assim a cobiça da deusa Inana, que lhe promete poder e riquezas caso ele a despose. Ele, porém, recusa e a censura por sua inconstância frente aos seus vários amantes, aos quais ela sempre prejudica. Irritada, a deusa recorre a seu pai, o deus-céu Anu, diante do qual ameaça romper os portões do Inferno e, dada a voracidade dos mortos, trazer grande escassez sobre a terra, caso ele não lhe dê o Touro Celeste para que este desça do ceu e enfrente Gilgamesh.


Anu é obrigado a conceder-lhe isso, e o Touro Celeste desce à terra e passa a assolar os campos. Porém, os heróis conseguem matá-lo e dedicam seu coração como oferenda a Utu. Inana, do alto das muralhas de Uruk, amaldiçoa Gilgamesh, provocando a cólera de Enkidu que, arrogante, ameaça a deusa e lança-lhe um quadril do Touro Celeste contra o rosto. Inana então convoca as devotas de seu templo e sobre o quadril do touro eleva uma lamentação, enquanto Gilgamesh e Enkidu entram triunfalmente na cidade, onde comemoram suas façanhas.


Enkidu, porém, passa a ter sonhos tenebrosos, sente aproximar-se a morte, entrega-se a lamentações e maldições contra os que o civilizaram e seu corpo definha rapidamente até a morte, apesar de apaziguado por Utu. Inconformado, Gilgamesh entrega-se ao pranto e à dor e a preparativos para um pomposo funeral, conclamando toda a Uruk a lastimar com ele a perda do amigo.


*****


Após os funerais de Enkidu, Gilgamesh abandona Uruk e vaga sozinho pela estepe, como uma fera. Abate leões e se veste com suas peles, comendo carne crua e deixando o corpo sujo e os cabelos por cortar. Procura o caminho para chegar a Ziusudra, o único mortal que, sobrevivendo ao Dilúvio, conquistou para si e para sua família a imortalidade.


Depois de muito perambular, chega à cordilheira Mashu, que toca os céus acima e os infernos abaixo e por dentro da qual passa o sol em seu caminho entre o poente e o nascente. Seus guardiões, os terríveis homens-escorpiões, ao saberem dos motivos de sua longa jornada, falam-lhe das dificuldades em vencer (e antes que o sol o alcance) a escuridão no longo percurso de doze léguas pelo interior da montanha, mas terminam por franquear-lhe a entrada, posto que reconhecem em seu corpo a ascendência divina.


Gilgamesh penetra na montanha e segue o caminho na total escuridão até a décima-primeira légua, quando surge a aurora (na nona légua já sentia o vento norte); na décima-segunda légua, o sol já quase o alcança, mas ele já alcança o Bosque de Pedras, lugar paradisíaco cujas árvores dão, além dos exuberantes frutos, pedras preciosas. E em breve chega à orla do mar, onde encontra Siduri, a taberneira que fornece vinho aos deuses, que tenta em vão fugir-lhe diante do estado de sujeira de seu corpo e vestes. Ele lhe conta de sua procura e de suas esperanças de encontrar, após falar com Ziusudra, a imortalidade, mas Siduri lhe relata as dificuldades em atravessar-se o mar, no meio do qual há as Águas da Morte. Ela exorta-o a usufruir a vida ao máximo enquanto a morte não vem e esquecer a busca de uma imortalidade só concedida aos deuses, mas indica-lhe Urshanabi, o barqueiro de Ziusudra, que talvez concorde em fazê-lo atravessar o mar.


Gilgamesh encontra Urshanabi, conta-lhe o que pretende e pede-lhe para conduzi-lo a Ziusudra, mas o barqueiro lamenta que Gilgamesh tenha destruído no bosque as "coisas de pedra" – que serviam de tripulação para impulsionar o barco e evitar que o barqueiro tocasse com suas mãos as Águas da Morte – e que tenha matado certas serpentes que facilitariam a viagem. Ordena então a Gilgamesh que vá ao bosque, corte e traga para o barco trezentos grandes postes, o que ele prontamente providencia. Em seguida lançam-se ao mar, velejando por três dias até chegarem às Águas da Morte, quando Urshanabi manda que Gilgamesh tome um a um os trezentos postes, usando-os até o último como propulsão, e que em nenhum momento toque com as mãos a água. Ao terminar todos os postes, Gilgamesh usa as roupas de Urshanabi como uma vela até saírem das Águas da Morte.


*****


Ao dar em terra, Gilgamesh chega à presença de Ziusudra e explica-lhe o motivo de sua vinda; ouvindo em troca um discurso sobre a fugacidade de todas as coisas, o fato de que nada é eterno, de que tudo passa e todos, exceto os deuses, morrem. Após ouvir, porém, Gilgamesh contra-argumentar que ele, Ziusudra, tem, não obstante, a vida eterna, passa a contar-lhe por que os deuses lhe concederam esse beneficio.


Conta-lhe que vivia na cidade de Shurupak quando o deus Enki lhe deixou que soubesse (por uma visão) que Enlil decidira extinguir toda a humanidade num dilúvio, devido ao fato de a terra ter clamado contra a abundância do número dos homens. Então aconselhou-o a construir uma grande arca e nela colocar sua família, seus bens, representantes de várias habilidades humanas e as sementes de todas as coisas vivas, o que foi feito. O dilúvio durou seis dias e sete noites, com chuvas tempestuosas que causaram temor aos próprios deuses e que fizeram desaparecer as mais altas montanhas sob as águas. Ao final, as águas foram baixando lentamente e o barco estacionou no monte Nisir por sete dias, no último dos quais Ziusudra soltou, sucessivamente, uma pomba e uma andorinha, que retornaram por não achar lugar de pouso, e um corvo, que não mais voltou. Só então ele libertou todos os seres vivos do barco e ofereceu sacrifícios aos deuses – os quais, sobretudo Enki, censuraram a Enlil por ter aconselhado a punir a totalidade dos homens, e não parte deles, injustiça que o deus buscou compensar concedendo a Ziusudra a vida eterna e designando a foz dos rios como sua residência.


Após relatar todos esses fatos, Ziusudra pergunta a Gilgamesh por que grande motivo iriam os deuses conceder-lhe vida eterna, e ordena-lhe que não durma por seis dias e sete noites; mas, tão logo acocora-se, Gilgamesh cai em sono profundo. Ora, a fim de evitar uma alegação de que pouco dormira, Ziusudra ordena que sua mulher coza diariamente bolos, que os deposite ao lado de Gilgamesh e que marque na parede os dias transcorridos. No sétimo dia Ziusudra o desperta e mostra-lhe a quantidade dos dias que dormiu. Gilgamesh percebe então a impossibilidade de vencer a morte, uma vez que sequer conseguia vencer o sono, e Ziusudra manda que Urshanabi leve-o a banhar-se, vista-o dignamente e o conduza de volta para casa.


Por sugestão de sua esposa, porém, Ziusudra chama Gilgamesh de volta (eles já haviam se lançado ao mar) para presentear-lhe com algo que ele possa levar para casa após tantos trabalhos: diz-lhe que poderá rejuvenescer se comer de certa planta que nasce no fundo do mar. Gilgamesh esforça-se então para mergulhar até o fundo e consegue a planta, que decide levar para Uruk, coloca-a no barco e põem-se a navegar de volta. Após cruzar o mar e andarem por muitas léguas, resolvem pernoitar próximo a uma fonte de água fria, onde Gilgamesh vai banhar-se. Porém, ao sentir o odor da planta, uma serpente sai da água e a devora, causando-lhe a substituição da antiga por uma nova pele. Gilgamesh chora, lamentando não mais poder encontrar o local em que mergulhara, e que tantos trabalhos foram realizados apenas para o benefício de outrem.


Várias léguas depois, chegam finalmente a Uruk cujas muralhas, erguidas por ele, Gilgamesh orgulhosamente apresenta a Urshanabi. Terminava uma longa jornada física e espiritual cujos detalhes Gilgamesh escreveria sobre uma estela de pedra.



(Por Waldísio Araújo. Escrito em março de 2008)




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Última atualização do texto: 04/09/2008, às 21:39:27




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Isabel (e-mail anônimo) escreveu, no dia 06/10/2008, às 11:05:01:

Bom Dia!! Excelente ensaio. Não imagino que melhor forma eu podria encontrar pra ter contato com ese épico, até então inédito pa mim. Parabéns!