Waldísio Araújo

A LITERARIEDADE E A HISTÓRIA ENQUANTO LITERATURA
— versão simplificada —

O ESTATUTO DA LINGUAGEM LITERÁRIA E A OBRA HISTÓRICO-EPISTEMOLÓGICA DE PAUL VEYNE

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Rapariga a Ler com Cão. Quadro de Charles Burton BarberRetornamos ao clássico e espinhoso problema da literariedade, mas de modo a atacá-lo por uma outra perspectiva, a epistemológica. Com efeito, sabemos que o discurso literário usa de um léxico e de uma sintaxe fornecidos pela linguagem verbal, e também sabemos, por Jakobson, que esta possui uma função poética que lhe é inerente; não obstante, essa aparente ausência de fronteiras precisas não impede que, no dia-a-dia, distingamos certos textos em linguagem verbal como decididamente literários e que consideremos tal distinção como algo normal e transparente, ainda que fiquemos embaraçados se buscarmos um critério de distinção válido; logo, podemos sempre nos perguntar sobre o que fundamentaria tal pretenso conhecimento.


Uma interpretação provisória e baseada no que pode vir a ser o critério de diferenciação mais difundido poderia conceber a obra literária como produto do trabalho da faculdade humana da imaginação sobre uma linguagem verbal que, quando espontânea, se apoiaria sobre uma outra faculdade, a do entendimento. O discurso literário aparece então como oposto aos discursos que narram, descrevem ou explicam o real tal como ele é, sem recriação ou embelezamento (tais como a História, o Jornalismo, a Ciência etc.). Tentaremos aqui destruir a muralha que dizem existir entre ambos os tipos de discurso, e usaremos como aríete a obra do francês Paul Veyne que, em dois golpes surpreendentes, transgride nossas noções de História e de Verdade.


Antes, porém, delimitemos ainda mais nosso tema, porquanto falar em discurso literário em oposição aos discursos que julgam dizer diretamente o real é algo muito amplo e complexo. Ora, a fim de dispormos de um ponto comum de comparação, aceitemos as constatações empíricas de que um caráter narrativo está claramente contido em ambos os lados da dicotomia mencionada (na Poesia Épica, no Jornalismo ou na História) e de que é a História o que se considera o discurso narrativo verídico por excelência. Nosso método consistirá então em opor narrativa historiográfica e Ficção narrativa e tentarmos verificar até que ponto tal distinção se mantém de forma quer essencial quer acidental.


O primeiro golpe de Paul Veyne em nossa dicotomia advém sobretudo de sua obra Como se escreve a história (1987), na qual define História como um gênero literário narrativo cuja convenção genérica fundamental é a exigência de veracidade – definição que, na prática, funde as noções de História como conhecimento e História como arte literária. Mas o que implica para a Literatura essa exigência cognoscitiva de veracidade, posto que a exigência genérica já é manifestamente literária? Ora, diferentemente das ciências hipotético-dedutivas, a História interessa-se pelos fatos em si mesmo, enquanto diferenças em relação a todos os outros fatos, não como pretexto para descobrir constâncias ou semi-constâncias ocultas. Enquanto diferença, um fato somente é cognoscível por todo o seu contexto, o qual é sempre lacunar e de limites incertos, o que quer dizer que todos os fatos reais são igualmente dignos de História: eles não têm valor em si, mas apenas em relação a uma intriga narrativa, e esta é escolhida subjetivamente pelo historiador, ainda que as convenções acadêmicas e suas relações de poder tenham tendido a obstruir essa liberdade em nome de uma pretensa objetividade científica da história.


Pausa para um exemplo hipotético: suponhamos que acabamos de encontrar um manuscrito do final do século XVIII (constatamos isso pela Paleografia, uma das ciências que, antes da síntese realizada pela História, busca fixar a veracidade do documento e, indiretamente, a dos fatos relatados nele) no qual alguém diz ter visto um torrão de terra avermelhada na sola de um dos sapatos de Tiradentes no momento em que este estava sendo aprisionado em Vila Rica. Aparentemente, esse torrão de terra é um fato desprezível em relação ao fato da prisão de Tiradentes, mas não o é necessariamente: tudo depende da intriga que algum historiador selecionar. Para uma intriga que descreva os mecanismos de cobrança de impostos no império colonial português, o torrão não terá provavelmente nenhuma importância; para uma intriga que se interessar pelos métodos de fabricação de sapatos no final do século XVIII, é possível que lhe seja atribuída uma certa importância; para uma última intriga que se importe com os lugares em que se ocultavam os inconfidentes mineiros, esse torrão pode vir a ter uma importância estupenda. Ademais, não há critérios válidos universalmente para considerar-se um tipo de intriga mais importante e mais digno de História que outro, e apenas o mundo acadêmico e suas regras impõem que os fatores políticos ou econômicos sejam sempre os mais importantes e fundamentais; no final, nada impede que surja alguém de dentro ou de fora das academias e que faça uma obra histórica valorizadora do torrão de terra no sapato e até mesmo que quase nada comente a respeito de fatos econômicos ou políticos.


Portanto, temos um subjetivismo radical no conhecimento histórico: o historiador é livre para selecionar a sua intriga. Contudo, temos também um fator de objetividade, pois dentro da intriga livremente escolhida a narrativa não será arbitrária ou imprevisível, pois o descrito será a causalidade do nosso mundo, mundo no qual as pedras não rolam numa velocidade qualquer, as sementes de maçã não fazem nascer limoeiros, os gafanhotos não saltam vinte metros, os homens agem de acordo com regras consciente ou inconscientemente aceitas, a linguagem limita o pensamento... Em suma, vivemos num mundo cuja ontologia diz respeito a seres concretos (imersos, para nossa percepção, no espaço e no tempo) e cujas relações causais aparecem-nos não somente como efeitos de finalidade humana e de acaso mas também de condicionamento material.


Essa subjetividade do historiador em escolher livremente a sua intriga é compartilhada com o ficcionista, cuja inventividade supera a daquele apenas em grau. Quanto à sua objetividade, esta não é menos compartilhada, pois exige-se também do narrador literário que ele seja coerente com a ontologia e formas de causalidade que sua imaginação criou: por isso, no mundo fictício de Homero ou no livro bíblico dos Reis, deuses podem interagir com os homens, ao passo que não o podem fazer no Don Quijote de Cervantes ou na obra histórica de Heródoto. Então nossa dualidade entre História e Ficção reduz-se a isto: apesar de submetidos igualmente à regra de coerência, fundadora de convenções de gênero (nem o discurso científico ou o filosófico conseguem livrar-se dela facilmente), o literato cria livremente sua ontologia e a forma de sua causalidade, ao passo que o historiador está inapelavelmente limitado à utilização da ontologia e da causalidade que herda, ao nascer, de seu meio cultural.


Mas eis que nos almeja o segundo golpe de Paul Veyne, a dissolver novamente nossa dualidade com sua obra Acreditavam os gregos em seus mitos? (1984). Para ele, nós transitamos incessantemente – e normalmente sem o percebermos – entre ambos os tipos de ontologias e causalidades e em cada uma delas nos portamos como diante de uma verdade. Isso é possível porque as múltiplas verdades são análogas entre si (todas têm suas regras de coerência), não existe para nós uma verdade unívoca que fundamentaria todas as outras e que pudesse aparecer como a Verdade. Longe de existir a Verdade, existem as múltiplas verdades, ou melhor, os múltiplos programas de verdade historicamente constituídos e que constituem, por sua vez, o mundo em que nos inserimos. E não podemos permanecer num único programa de verdade, assim como não podemos pensar fora de algum – o que quer dizer que estamos sempre a transitar entre eles de acordo com as circunstâncias e conveniências.


Outra pausa para exemplificar, agora com exemplo emprestado ao próprio Veyne (1984, p.9). Segundo o antropólogo Dan Sperber, os Dorzé – uma tribo pastoril cristã copta da Etiópia – a pantera é um animal cristão e, como tal, jejua nos dias santos. Ora, nem por isso os dorzé deixam de vigiar seus rebanhos contra a pantera nesses dias de jejum. Então há crenças contraditórias no cérebro de um Dorzé, mas cada uma dessas crenças é coerente dentro de um programa de verdade: num deles, a pantera é um animal que precisa comer, seja qual for o dia; em outro, a pantera é um animal que jejua. Como nos sonhos, trata-se sempre do verdadeiro, pois só dizemos que estes são falsos quando despertamos deles e nos engajamos num programa de verdade cuja ontologia considera os sonhos como ficção; então um Dorzé emite suores e tremores e aumenta seu ritmo cardíaco durante seus pesadelos, destes acorda com o balido agitado de suas ovelhas, provavelmente causados pela presença ameaçadora e voraz da pantera, felino do qual ouvirá falar logo mais, no templo copta, ser um animal que jejua nos dias santificados.


Então, o que distingue essencialmente a narrativa ficcional da narrativa histórica? A julgar por Paul Veyne, não há nenhuma distinção essencial, mas apenas acidental, ou seja, historicamente construída: o escritor de ficção obriga-se a um esforço extra para sustentar a crença do leitor no mundo e nas leis que cria, a fim de mantê-lo preso o mais possível ao seu programa de verdade, e isso significa atualizar inúmeras possibilidades, ou seja, os recursos transmitidos através de séculos daquilo que as convenções genéricas de cada época tem chamado “Literatura” e que incluem desde o enfeitiçamento pelo maravilhoso até a imitação dos próprios procedimentos da narrativa histórica – o que quer dizer que distingue-se do poeta lírico apenas pelo fato de este, mais que criar outros mundos, ocupar-se com a descrição ou narração do próprio mundo de valores em que vive (SANTOS, 1983).


A diferenciação entre Literatura e linguagem verbal “pura” em termos de polarização entre realidade e ficção pode ser, pois, inserida no projeto veyneano de historização da noção de “verdade”. Mas por que isto deve ser encetado? Que vantagem prático-teórica obteríamos de tal historização? Para que nossa civilização precisa disso? Não podemos desenvolver aqui esses novos problemas, mas podemos suspeitar ser cabível um tema nietzscheano (afinal, Paul Veyne é leitor freqüente de Nietzsche): o de que os avanços do niilismo no Ocidente seriam o efeito corrosivo de uma radicalização progressiva da “vontade de verdade” que, após a morte de Deus, ameaçaria mergulhar o homem numa mórbida negação da vida, num arrefecimento autodestrutivo de sua vontade de potência (NIETZSCHE, S.d.). Ao contrário, a desmistificação da verdade através de sua historização radical, destituindo-a de sua essencialidade e de seu prestígio enquanto algo “eterno” e “imutável”, insere não somente os programas de verdade, mas também aquilo que chamamos “ficções” (incluindo as literárias), em meio às lutas dos poderes que, ao fim e ao cabo, nos constituem.



(por Waldísio Araújo. Versão simplificada de comunicação apresentada no I Colóquio Nacional de Estudos Lingüísticos — I CONEL —, Natal, Rio Grande do Norte, em 16/11/2007, e disponível no CD-ROM do evento e AQUI



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REFERÊNCIAS:



NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A genealogia da moral. São Paulo: Moraes, S.d.


SANTOS, Wendel. Crítica: uma ciência da literatura. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1983.


VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos?: ensaio sobre a imaginação constituinte. Trad. H. González e M. M. Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.


_______. Como se escreve a história. Trad. A. J. da S. Moreira. Lisboa: Edições 70, 1987. (Col. Lugar da História, vol.20)



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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:13:01




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