Waldísio Araújo

A LITERARIEDADE E A HISTÓRIA ENQUANTO LITERATURA

O ESTATUTO DA LINGUAGEM LITERÁRIA E A OBRA HISTÓRICO-EPISTEMOLÓGICA DE PAUL VEYNE

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A Leitora, quadro de FragonardUm texto literário não pode ser perfeitamente reduzido a uma paráfrase em linguagem verbal do dia-a-dia, mas sempre é possível alguma conversão entre ambas – com perdas ou ganhos, de acordo com os objetivos de quem realiza a conversão e com os efeitos, desejados ou não, provocados naqueles a quem ela se destina. Contudo, a diferença entre dois textos e suas potencialidades pragmáticas não significa necessariamente diferença essencial entre duas linguagens nem mesmo a constatação de que sejam numericamente duas, assim como um copo com água e gelo não é um continente para duas substâncias essencialmente diferentes. Porém, se não forem realmente diferentes, o que dá à Literatura ao menos uma aparência de atualização dos misteriosos poderes latentes da linguagem verbal? Ou esta já seria mais ou menos literária desde sempre? Talvez jamais possamos responder a essas perguntas, mas colocá-las de forma diferente pode nos fazer pensar diferentemente o fenômeno literário.


Por haver uma forte tendência a imaginarmos a linguagem comum como algo mais próximo da prosa que da poesia, e como os gêneros artísticos prosaicos mais divulgados na atualidade são os narrativos, que também aparecem amiúde no conjunto dos usos não literários da linguagem verbal (jornalismo, história etc.), nada nos impede reduzir, ao menos momentaneamente, nossas considerações à narratividade. Porém, temos hoje em dia uma hiper-valorização dos discursos narrativos, a ponto de uma disciplina recente e em franca expansão, a Narratologia, constatar uma quase ubiqüidade da narração, o que deixa nosso campo de atuação demasiadamente amplo; mas nos ocorre uma outra tendência fortemente estabelecida, que se nos impõe quase que como um dogma, a de que o discurso narrativo dos gêneros da ficção teria um direito quase que natural a ser considerado literário – ainda que fiquemos embaraçados pateticamente quando nos perguntam quais os critérios que utilizamos ao votarmos tranquilamente às aulas literárias o Frankenstein de Shelley, ao ficarmos em dúvida sobre se devemos fazer o mesmo com os contos pornográficos underground ou ao inapelavelmente condenarmos ao ostracismo literário o livro bíblico do Gênesis. Por outro lado, aceitaremos como pressuposto que o gênero lírico, longe de ser um modo ligado a mundo fictícios, fala diretamente do nosso mundo em busca de sua verdade, ao invés de fazê-lo mediante a anteposição de um outro mundo (SANTOS, 1983, p.65). Reduziremos, portanto, nossa pesquisa à interrogação sobre o que faz com que uma narrativa ficcional venha a ser considerada literária, posto que nem toda ficção narrativa o é necessariamente.


Fonseca (1996, p.880) dá o devido crédito a Jakobson por ter ele inserido uma função poética na linguagem (entendida enquanto comunicação), ao tempo em que credita explicitamente a K. Hamburger (FONSECA, idem, p.883) o ter aberto o caminho à descoberta de características lingüísticas no cerne da literatura ficcional; paralelamente, ela promove um encontro entre ficção e narrativa ao falar em “função narrativa ou evocativa”, segundo a qual parte-se “de uma representação do mundo real para construir, por meio da linguagem, mundos alternativos possíveis ligados a esse mundo real por uma relação mimética.” (FONSECA, idem, p.882). Esta definição pode parecer à primeira vista paradoxal para todos os que pensam ser óbvio que uma narrativa fictícia se opõe radicalmente a uma narrativa que descreve fielmente o real; afinal, não são o real e o irreal, o concreto e o abstrato, contraditórios entre si como o são o verdadeiro e o falso?


Não! as coisas não são tão simples assim, e não devemos confundir o ponto de vista ontológico com o lógico e o epistemológico. Verdade e falsidade são aplicáveis apenas a juízos e proposições, não às coisas de que se fala; estas apenas podem ser reais ou irreais; ademais, nem todas as coisas reais são concretas, e isso pode ou não ser atribuído tanto a mundos fictícios quanto a mundos reais, sem contar que podemos tratar de forma literária coisas reais e de modo não literário coisas irreais. Porém, teremos mais o que dizer em seguida sobre isso; antes, trataremos daquele que é o discurso narrativo unanimemente considerado verdadeiro por excelência porquanto se refere precisamente aos fatos reais e concretos: o discurso histórico. E é aqui que achamos conveniente anunciar a importância da obra do filósofo-historiador francês Paul Veyne, o mais intrigante epistemólogo da chamada Nova História francesa, corrente historiográfica que levou às últimas conseqüências as propostas da gloriosa Escola dos Analles, de Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel.


Diremos logo de início que para esse pesquisador incansável a História é narração de acontecimentos verdadeiros, o que não a impede de ser um gênero literário, semelhante a um romance que não mente (VEYNE, 1987, p.21). Tentaremos esclarecer o aparente paradoxo, porém não antes de alertarmos para o fato de que estamos abrangendo com o conceito de “narração” o que comumente é chamado “descrição”, termo que consideramos essencialmente ligado a “narração” na medida em que se fala do ambiente que serve de fundo à ação narrada e em que são apresentadas as personagens que atuam. Convencionamos, então, que o que chamamos “narrativa” pode também ser lido como “narração/descrição”.


A priori, podemos dizer que há três formas básicas de o conhecimento humano interessar-se pelos fatos empíricos: enquanto meios para intervenção prática no mundo da ação; enquanto manifestações visíveis de relações invariáveis ocultas; enquanto interessantes por si mesmos, por sua inserção no espetáculo do devir. Para Veyne, a primeira forma seria o lugar epistemológico ocupado pelas praxeologias, a exemplo da Economia ou da Teoria da Informação; a segunda, o lugar das ciências hipotético-dedutivas, como a Física ou a Bioquímica; a terceira, o lugar da História ou da Geografia. Acresce que cada um desses campos pode a princípio tratar de quaisquer fatos ou tipos de fatos existentes, mas somente na sua forma própria de tratá-los, independentemente de serem fatos humanos ou naturais, passados ou presentes: a única regra é que ocorram efetivamente no mundo real, ou melhor, que os juízos com que o entendimento os pensa e as proposições com que a linguagem os expressa no discurso sejam verdadeiros.


O fato de poder interessar-se por tudo não deve fazer-nos pensar que a História não teria limites pois, em primeiro lugar, ela não tem acesso direto e total aos fatos, mas apenas mediante documentos, registros, vestígios, os quais são sempre raros e não dizem tudo sobre eles; em segundo lugar, os fatos são manipulados por historiadores, que têm competência historiográfica sempre limitada à sua própria subjetividade, que lhes faz enxergar relações factuais mais ou menos abrangentes de acordo com sua complexa história de vida (feita de leituras, impressões, pensamentos, conversas, experiências etc.); finalmente, há a limitação imposta pelas convenções do gênero, que, através das épocas, impediram que a História assumisse a posse virtual de todo o seu campo, ou seja, sempre deixaram uma extensão imensa de fatos fora do campo historiográfico, embora esta limitação esteja sendo removida a passos largos desde a Escola dos Analles.


A História gostaria de dizer tudo sobre o que se situa no devir e no vivido, abarcar num relance toda a complexidade caótica do real (seja por impulso próprio, seja para erigir-se em ciência hipotético-dedutiva), mas não pode fazê-lo porque só temos das coisas visões perspectivas, e só um Deus onisciente poderia ter todas as perspectivas ao mesmo tempo, ainda que de um único acontecimento restritamente localizado no espaço e no tempo, como uma dada partida de futebol; logo, mesmo para um objeto bastante específico é preciso selecionar o que deverá ser incluído. Contudo, não sabemos a priori o que será mais digno de ser incluído no campo da História, porque o que não tem nenhuma importância para certa problemática pode vir a ter para uma outra ou várias, de modo que, tendo em vista que o todo é inabarcável, todo fato, desde que tenha acontecido, é igualmente digno de história. Sabemos então que temos que selecionar algo, mas não sabemos de antemão o que deverá ser selecionado. E é aqui que entra a noção de narrativa, pois esta implica essencialmente uma seleção que valoriza, comunica valor aos fatos que narra de acordo com a sua utilidade para uma intriga dada. Com efeito, o torrão de terra avermelhada preso à sola do sapato de Tiradentes no dia de sua prisão talvez não tenha a mínima importância para uma intriga baseada nas arrecadações de tributos do Estado português colonial, mas pode fazer sentido numa intriga que se preocupe com os locais por onde andavam os inconfidentes, ou uma intriga que leve em conta os modos de fabricação de calçados em finais do século XVIII, ou ainda uma intriga que dê conta das características do solo na região Sudeste do Brasil. Tanto enquanto documento como enquanto acontecimento, ou ambos ao mesmo tempo (VEYNE 1987, p.64), o torrão e tudo o que existe pode participar direta ou indiretamente de um número indefinido de intrigas possíveis, o que quer dizer que nada tem valor em si, mas apenas como elemento de alguma intriga – a qual se reporta a uma hierarquia de valores subjetivos do historiador, é certo, mas esta não é mais nem menos válida que as escalas de valores dos outros historiadores, ou seja, não existe nenhuma delas que possa legitimamente se arvorar em representante de uma verdade definitiva.


A constituição do fato pela intriga faz com que ele não seja visto como igual a outros de mesma ou de outra espécie, mas como diferença significativa, como “acontecimento”. Na verdade, o fato não faz sentido fora de uma intriga, ele não é um ser, mas um entrecruzamento, um nó virtual formado por um número indeterminado de intrigas possíveis, e é somente sua inserção efetiva numa intriga determinada aquilo que o torna um acontecimento (VEYNE, 1987, p.48). Portanto, os fatos brutos podem até existir na realidade, mas fora de uma intriga eles não são para nós dotados de sentido, o que diferencia radicalmente a concepção veyneana e a historiografia positivista, para a qual os fatos seriam singularidades atômicas. No nível epistemológico do discurso, nada pode ser dito do fato singular, pois ele sempre remeterá a conceitos e termos universais, a “espécies” no sentido aristotélico, e podemos dizer sobre ele um número ilimitado de coisas desde que disponhamos de conceitos e palavras para tal, ou que criemos esses conceitos e palavras, o que quer dizer que a História não fala do geral (pois não pode abarcar o todo do acontecimento, em sua complexidade) nem do singular (pois não pode ter acesso a ele em sua pureza e diferença radical, mas apenas por referência a conceitos); logo, a História, para ser coerente com suas convenções de gênero, apenas pode ocupar-se do específico. Como não podemos dizer todas as determinações atuais e possíveis do fato, ele será para nós, ao constituirmos o acontecimento, apenas uma palavra que finge dizer exaustivamente o ser mas que, na verdade, nos faz evocar somente uns poucos de seus predicáveis possíveis.


Assim, a noção de intriga, juntamente com a de especificidade, permite ultrapassar a historiografia positivista, que partia do pressuposto de que o fato seria um todo monolítico, atômico, à disposição de um historiador cujo trabalho seria o de simplesmente ligá-lo causalmente a outros fatos. Para Veyne, ao contrário, o fato não é cognoscível por si e em si, de modo que escrever História é criar, inventar acontecimentos mediante a valoração e inserção dos fatos numa intriga narrativa, o que, convenhamos, não difere em essência do trabalho de quem escreve romances, exceto num ponto: as ações que o historiador narra dos entes têm que ter acontecido realmente, ou seja, as proposições que o historiador enuncia no discurso têm que ser expressão de juízos verdadeiros – ao contrário do que se faz no Romance, que pode contentar-se com o meramente verossímil, o que nos reenvia para considerações a respeito do mundo real. Com efeito, temos nos movimentado em três níveis de investigação: o nível mental, no qual os conceitos se inter-relacionam em juízos; o nível textual, no qual os termos se inter-relacionam em proposições; e o nível real, no qual os seres interagem em relações causais. São estas últimas, mas submetidas à exigência estética de coerência interna do discurso, que impedem que o historiador seja arbitrário e que permitem a este arriscar-se menos perigosamente além daqueles limites do conhecimento histórico de que falávamos anteriormente; elas permitem que o turbilhão das singularidades irredutíveis seja conjurado por sua redução às especificidades e que o mundo se nos apresente em sua superfície não como caos, mas como cadeia de causas e efeitos que tornam possível a fundação de teorias, a análise de estruturas, a captação de evidências, a constatação de costumes, tipos, convenções ou esquemas explicativos. Enfim, torna-se assim possível a criação de edifícios conceituais e lingüísticos ordenadores, e estes consistem para o historiador no conjunto dos entes e de suas inter-relações necessárias ou contingentes localizadas no tempo e no espaço.


É justamente essa causalidade “sublunar” o que liga as várias partes da intriga na narrativa histórica, tornando possível descrever-se a interação dos seres que dela participam, ao mesmo tempo em que a tornam algo previsível em termos amplos, pois cada ser tem limites mais ou menos rígidos de ação – impostos pelos condicionantes físicos, genéticos, mentais ou sociais – e tem também certo grau de liberdade de ação dentro de tais limites. Veyne junta tudo isso na idéia de que toda intriga deve comportar causas superficiais (o acaso), causas materiais (as condições) e causas finais (a liberdade), e que leva mais ou menos longe cada uma delas (VEYNE, 1987, p.116), o que quer dizer que existe no mundo algum grau de liberdade e de acaso nos interstícios de todas as determinações; narrar historicamente é, então, fazer interagirem alternadamente essas causas na descrição das ações dos seres que se localizam no tempo e no espaço em que todos vivemos.


Quanto à ficção literária, esta não instala necessariamente os seres que ela cria no espaço e no tempo que nós conhecemos do dia-a-dia (embora possa fazê-lo), assim como não os obriga a respeitar as mesmas leis que nos regulam as ações. Mas parece haver uma semelhança profunda nas regras do pensamento válidas tanto para o historiador quanto para o literato no momento em que o primeiro escreve sua história ou o segundo sua ficção narrativa. Com efeito, esta última pode passar-se em um mundo estranho improvável como o da maioria de nossos sonhos e pesadelos; como nesses, a literatura funda um mundo na imaginação, e os seres têm sua natureza e relações mais ou menos coerentes com regras imaginárias, embora a imaginação onírica seja mais arbitrária, entregue-se mais à associação inconsciente ou subconsciente e não obedeça a convenções de gênero – apenas, quando muito, poderá ser limitada pelos impedimentos mútuos das faculdades conscientes, sub-conscientes ou inconscientes (se a Psicanálise tiver alguma razão); e talvez o Superego freudiano imponha até aos sonhos as amarras que a consciência em vigília exerce sobre a livre-expressão das forças do Id mediante as condições do pensamento em geral: uma substancialidade, uma causalidade, um tempo e um espaço, mas sobre isso pouco podemos dizer aqui.


Em resumo, criar seres e regras de relação entre eles não impede que as formas a que se submetem esses seres e relações sejam bastante diferentes das que se usa para narrar o mundo real, mas seres e relações de algum tipo serão sempre necessários, assim como para as línguas são necessários um léxico e uma sintaxe, pois não se inventa nada fora das regras mais gerais do pensamento e da linguagem, ao menos das que vigem na época e na cultura em que vive o narrador literário ou o historiador. Este último, porém, já encontra ao nascer uma ontologia aceita transparentemente como óbvia pela sua civilização e época – ontologia que ele pode tentar desmascarar criticamente, mas cujas condições mais gerais adotará sem perceber, assim como costumamos denunciar racionalmente os desmandos da razão ou culpamos a hipocrisia social sem lembramos de que estamos a pensar socialmente, pois os princípios que norteiam nossa ação são em grande parte transparentes à nossa consciência, de modo que não os enxergamos, assim como o analfabeto não enxerga que está a utilizar uma gramática. Mas os historiadores mais frequentemente aceitam a ontologia vigente e a empregam para simplesmente narrar o verdadeiro para seu público, e este lhe concederá de boa vontade sua crença enquanto alguma crítica não questionar convincentemente as verdades que lhe foram comunicadas. Estabelecem-se mais facilmente, assim, na História, o pacto virtual de crença que existe entre público e narrador. Quanto ao narrador literário, ele não se contenta com a ontologia que encontrou desde o seu nascimento e que foi imposta a ele socialmente, mas sempre a rejeita e transgride em algum grau, mas à custa de ter que usar de outros artifícios para instalar em seu público a crença – ainda que esta, como nos sonhos, dure apenas enquanto ele estiver imerso nela, pois é muito frágil a atenção humana sobretudo quando não encontra referenciais perceptivos reais ou imaginários em que se apoiar.


Em todas as artes, busca-se manter ao máximo essa atenção do público, ao menos pelo tempo suficiente para a transmissão da cadeia ou estrutura dos significantes, e o artista sabe instintivamente que a atenção da mente do público é disputada por vários mundos imaginários ou reais para os quais ele pode desviar-se a qualquer momento arruinando, assim, a apreciação estética. A História comporta-se então como arte, mas o que nos interessa, aqui, é o fato de que, tanto para o historiador quanto para o ficcionista, há a consideração (ainda que subterrânea) de dois mundos, no mínimo: o que é considerado por sua época e cultura como “real” e o que ele cria imaginativamente, ou seja, o da ficção. O historiador também produz (com a ontologia considerada real) um mundo imaginário porque tem que usar de conceitos e palavras, e estes não são o real, mas uma abstração seletiva baseada nele segundo os critérios historicamente condicionados que o constituem; por outro lado, o ficcionista usa o mundo real (e a língua que compartilha com ele) como base para construir seu mundo fictício, ao menos o suficiente para tornar-se compreendido; finalmente, ambos terão que lidar com o fato de que o leitor deixará oscilar imperceptivelmente sua crença entre o mundo real e o fictício.


Para Veyne esta oscilação da crença entre mundos reais e mundos fictícios relaciona-se ao fato de haver uma pluralidade de crenças (VEYNE, 1984, p.9): pode-se crer no que é acompanhado por um construto mental, crer no que é aferido pela experimentação, crer no que nos dizem desde que nascemos, crer na maioria, crer por estar escrito e rubricado, crer por ser mais antigo, crer por ser mais atual, crer por se encaixar num esquema teórico, crer na autoridade etc. Mais importante, saímos de uma modalidade de crença para outra sem o sentirmos, mesmo para crenças contraditórias com a inicial, e é assim que mergulhamos com medo no filme de terror, embora ao desligarmos a TV o façamos com a consciência de que aqueles seres e ações assustadores não existem no mundo real; em seguida, pegamos um romance e nos atiramos cegamente ao mundo dos cavaleiros armados, dos gângsteres ou do País das Maravilhas; ou abrimos um livro de Antropologia e vivemos momentaneamente o mundo das trocas entre os trobriandeses, numa narrativa verdadeira porém mais estranha para nós que as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em cada uma dessas viagens há alguma modalidade de crença à qual nos entregamos de forma mais ou menos intensa e vivida de acordo com a atenção que concedemos a elas, ou seja, em função do pacto que estabelecemos virtualmente com o narrador; o que quer dizer que todas essas crenças são verdadeiras dentro de seus sistemas semiológicos respectivos – ou, nos termos usados por Paul Veyne, em seus respectivos “programas de verdade” (VEYNE, 1984), em suas “práticas discursivas” (VEYNE, 1978), em suas “pragmáticas e semióticas” (VEYNE, 1985, p.264), em suas intrigas, em suma – e falsas em relação a quase todos os outros. Logo, a Verdade absoluta, a-historica, imutável, com “V” maiúsculo não existe, mas apenas “verdades”, e estas devem sua existência às configurações das lutas e alianças de poder que constituem o nosso mundo, ou seja, são acontecimentos históricos como todos os outros e apenas fazem sentido se inseridas em intrigas históricas, nenhuma das quais mais verdadeira que as outras desde que coerentes (VEYNE, 1984, p.134).


A verdade não existe em termos absolutos, e sequer é uma só. Mas isso tampouco significa instalar um relativismo radical nos estudos históricos, mas trata-se, aqui, mais propriamente de um perspectivismo. Com efeito, um relativismo histórico partiria do pressuposto de que o acontecimento humano é visto de forma diferente de acordo com a época da história humana em que se localiza o historiador ou seu público; ora, como vimos, para Veyne tal acontecimento não existe, mas é construído a partir de sua inserção numa intriga, assim como o fato fictício só faz sentido na e pela intriga escolhida pelo literato. Por isso Veyne desconfia do essencialismo de qualquer concepção eterna do homem e de pretensas ciências humanas que não partam do princípio de que tudo – as coisas, os homens e até mesmo as verdades – é sublunar, concreto, vivido, está imerso no devir concreto, de que nada está aí desde sempre nem é criado por instâncias superiores divinas e a-históricas, mas é construído historicamente, inclusive a própria História enquanto gênero.


E essas considerações epistemológicas a respeito da dissolução contemporânea do fato histórico não devem fazer-nos pensar que os fatos não existem concretamente. Na verdade, só eles existem, mas não podem ser conhecidos em sua realidade plena, ou seja, em sua singularidade, porque o conhecimento discursivo os reporta sempre a totalidades representadas pelos conceitos, pelas palavras e, daí, pelas intrigas. Tomemos o exemplo da loucura tal como estudada por Foucault (1991): ao invés de um objeto monolítico – a Loucura com “L” maiúsculo – que seria apreciado de formas diferentes no decorrer das épocas, o que temos são fatos não necessariamente inter-relacionados, tais como comportamentos estranhos frente às normas sociais, ataques microbiótico ao sistema nervoso central, desvio da ordem vigente, sexualidade reprimida, interditos do ensinamento moral, discriminação, internamento em hospícios, gritos, assincronias eletroencefalográficas, camisas-de-força, manifestações divinas e muitos outros fatos que podem nas diversas épocas ser ou não combinados diferentemente na configuração do que se chamará em cada uma delas "loucura". Tais fatos existem realmente porque são concretos; ao contrário, não existe a Loucura, mas os loucos existem de acordo com a forma como são constituídos como sujeitos de loucura pelas épocas sucessivas. Assim, a Idade Média deixava os loucos em liberdade, não os associava à sexualidade ou à doença e os viam como emissários de ensinamentos importantes; a Idade Clássica associou-os a uma Loucura que ameaçava o trabalho da Razão e os trancafiou nos asilos, submetidos a um olhar público que agora os fundia às outras personagens que para lá também foram enviadas: o criminoso, o maníaco sexual ou o sifilítico; o mundo contemporâneo torna o louco objeto de análise e nele descobre uma sexualidade doentia que o próprio olhar ocidental já havia imposto na Idade Clássica pelo convívio no internamento do louco com outros tipos sociais... Ora, entre uma época e outra não era o mesmo tipo de gente que era subsumido sob o conceito de loucura, de modo que discursos que creem na continuidade histórica teriam suas conclusões falseadas pelo fato de estarem a comparar seres diferentes definidos por programas de verdade heterogêneos, o que é tão absurdo quanto somar numa única expressão numérica quantidades expressas em unidades de medida incompatíveis entre si. Apenas a palavra "loucura" permanecerá como totalidade, mas não passará de um significante relacionado a uma heterogeneidade de significados sucessivos que não perfarão uma história da Loucura válida, mas apenas uma história da loucura medieval, uma história da loucura constituída pelo internamento do século XVII ou uma história da loucura na época da anti-psiquiatria, cada uma delas relativa à intriga escolhida.


O que faz com que passemos de um programa de verdade a outro com tanta facilidade e sem necessariamente o percebermos é o caráter homológico e analógico da verdade (VEYNE, 1984, p.31), que permite até mesmo acreditar em coisas contraditórias ao mesmo tempo. Veyne cita estudos de Dan Sperber relacionados aos Dorzé, tribo de pastores etíopes da seita copta que acreditam que a pantera é tão cristã quanto eles, mas não deixam de defender seus rebanhos contra ela nos dias de jejum religioso; a pantera aparece, pois, num programa de verdade, como animal que precisa comer sempre, e em outro programa como animal que jejua nos dias santificados; e o que torna possível conviver com a contradição é o significante “pantera”, que mascara tal contradição sob uma referencialidade conceitual tida como totalizadora. Isso assemelha-se, pois, ao proverbial saber que diz que todos falam que querem ir para o Céu, mas nem por isso querem morrer, e essa ambigüidade de crenças divergentes é possível porque há jogos lingüísticos entre significantes ambíguos e significados variáveis, há semelhança entre as formas de conhecimento do mundo real e as formas com que construímos outros mundos, há a tendência de completarmos por “retrodicção” as lacunas factuais de um mundo com os processos de causalidade de outro (VEYNE, 1987, p.167), e há os recursos dêiticos que permitem ancorar o tempo e o espaço de um mundo em outro (FONSECA, 1996, p.882). Dentro da própria obra histórica inserimos nossas crenças sem o percebermos, sobretudo na “retrodicção”, procedimento pelo qual preenchemos as lacunas dos nossos conhecimentos com inferências que pedimos emprestadas às nossas concepções do homem eterno, de modo que, se os documentos não nos dizem a razão de um povo ter-se rebelado contra o rei, invocamos o que consideramos “bom-senso” e sugerimos que algo impopular (como um aumento dos impostos) provocou o mal-estar social. Inversamente, no mundo da ficção introduzimos sem notar coisas que consideramos verdades tão irrefutáveis que diríamos pertencer a qualquer mundo possível, como a informação de que uma personagem sentiu dor ao ser torturada pelo vilão. A verdade pura ou a ficção pura são impossíveis, porque nenhuma delas pode esgotar na obra todo o seu campo de interesse, e essa impossibilidade reduz o que chamamos “verdade” e “ficção” a diferenças de grau, motivo pelo qual basta retirar dos livros bíblicos dos Reis todas as referências a punições ou recompensas divinas das ações dos hebreus para termos uma história que pouco ou nada deve à de Heródoto, o qual fez uma narrativa sem interferência divina e, com isso, inventou a História ao obrigar suas personagens a movimentar-se no tempo e no espaço e segundo uma causalidade que é aquela com a qual estamos habituados e na qual se misturam determinismo e liberdade – posto que sabemos que os seres têm de agir frente aos condicionantes do mundo, mas não sabemos como eles exercerão sua liberdade relativa de ação.


Nada há, portanto, de intrinsecamente essencial que distinga a narrativa literária de qualquer outra, mesmo da mais inquestionavelmente “verdadeira”, exceto a sua menor adesão ou mesmo não-adesão ao programa de verdade que convencionamos tacitamente chamar “real”, programa que interessa essencialmente à História. Mas a Literatura, ao menos negativamente, compartilha com esta alguma relação com o verdadeiro, e é isso que as torna tão mutáveis, pois, se as convenções buscam a permanência, muda o que cada época implicitamente convenciona ser a verdade, de modo que nada é mais mutável que essas convenções. Assim, para garantir que a adesão do público seja convincente, a narrativa ficcional, com o passar do tempo e muito mais que a História, tem acumulado uma vasta quantidade de processos, procedimentos ou recursos técnicos que permitem a ela construir lingüisticamente mundos suficientemente convincentes. Ela dispõe, então, de “atrativos” aprovados pelos séculos tais como as peripécias muito movimentadas, o suspense, o documento falso, a mudança de foco narrativo, as alterações rítmicas, a alternância de tensão e relaxamento, o enriquecimento psicológico e humano, o humor, o diálogo inteligente, as referências metafóricas, as personagens que se desdobram em outras, as evocações sonoras, as temporalidades múltiplas, o monólogo interno, os paradoxos, a paródia, as intervenções metalingüísticas, a exploração da ambigüidade e muitos outros. Por seu turno, a História pouco acrescentou ao seu arsenal além das notas de rodapé, as múltiplas temporalidades, uma maior exigência de rigor ou alguma manipulação quantitativa mais refinada, todas desnecessárias à explicação da sua grandeza como gênero (VEYNE, 1984, p.21). No mais, História e ficção progridem à custa do não-acontecimental e do não-dito e mediante a criação, respectivamente, de novos conceitos e de novos processos de invenção de mundos (in)críveis.


Contudo, a relação de ambas com a verdade deve ser coerente com a idéia de que só existem verdades plurais e históricas, o que significa que História e Literatura têm de ser elas próprias historicizadas. Mas para que fazê-lo se não para mudar suas estruturas íntimas? Ora, não se trata disso, pois o conhecimento de sua historicidade não irá torná-las em si diferentes, uma vez que a modificação de um gênero só se dá mediante a automática criação de outro, de modo que os gêneros História e Literatura permaneceriam ao menos como possibilidade. A historicização delas, contudo, tem a nosso ver duas utilidades inter-relacionadas: por um lado, insere-se num programa maior de historicização da noção de “verdade”, o qual pode ajudar a desmascarar processos inconscientes que criam no homem sujeições a todos os tipos de poder. Por outro lado, há os fortes indícios de niilização da cultura planetária, uma abdicação total dos valores, inclusive dos valores da vida, e que pode conduzir tanto a uma servidão voluntária em massa quanto a um suicídio civilizacional. Ora, a acreditarmos em Nietzsche (S.d., p.112), esse niilismo fundamenta-se justamente nos avanços da “vontade de verdade” e só pode ser combatido quando ela própria propuser sua auto-crítica. Acreditamos aqui que tal autocrítica pode englobar a do valor da própria verdade tanto em sua aparência de essencialidade (pois ela tem uma história) quanto em sua aparência de beleza (pois ela nada tem a ver com o belo).


De qualquer modo, permanece válido para nós que a ficção narrativa inventa e explora possibilidades estéticas de construir lingüisticamente mundos fictícios a partir de categorias ontológicas que imitam as que consideramos “reais”, sobretudo as de tempo, espaço, substância e causalidade. Em nossa opinião, estamos próximos de Fonseca (1996, p.883) ao concluirmos que essas categorias ontológicas estão ligadas lingüisticamente ao que ela considera coordenadas enunciativas dêiticas, que conectam referencialmente mundos fictícios a mundos reais. Caso consigamos interligar estreitamente esses condicionantes ontológicos e lingüísticos, teremos ultrapassado finalmente as fronteiras que buscam separar literatura e linguagem e veremos finalmente unido o prazer de falar, ouvir, escrever e ler ao nosso impulso humano por compreender e modificar o caráter fictício do mundo em que vivemos mediante as verdades dos mundos que inventamos.



(por Waldísio Araújo. Comunicação apresentada no I Colóquio Nacional de Estudos Lingüísticos — I CONEL —, Natal, RN, em 16/11/2007, e disponível no CD-ROM do evento). Uma versão mais simples deste ensaio pode ser visualizada AQUI



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REFERÊNCIAS:



FONSECA, Fernanda Irene. Quand dire c'est feindre: théorie linguistique et fiction littéraire. In Triennial Congress of the International Federation for Modern Languages and Literatures, 19, 1993, Brasília. Proceedings... Brasília: Universidade de Brasília, 1996.


FOUCAULT, Michel. História da Loucura. Trad. J. T. C. Netto. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 1991. (col. Estudos).


NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A genealogia da moral. São Paulo: Moraes, S.d. SANTOS, Wendel. Crítica: uma ciência da literatura. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1983.


VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos?: ensaio sobre a imaginação constituinte. Trad. H. González e M. M. Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.


_______. A elegia erótica romana: o amor, a poesia e o Ocidente. Trad. M. M. do Nascimento.e M. G. de S. Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.


_______. Como se escreve a história. Trad. A. J. da S. Moreira. Lisboa: Edições 70, 1987. (Col. Lugar da História, vol.20)


_______. Foucault revoluciona a história. In: Como se escreve a história. Trad. A. Baltar e M. A. Kneipp. 3. ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1995.



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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:13:03




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