POR ONDE OS CAMINHOS PASSAM
Há territórios que se destacam por ser, em suas origens, pontos de passagem, geralmente enquanto entrepostos comerciais, e as orientais cidades do Cairo, Damasco, Palmira e Meca são exemplos de quão dinâmicas, influentes e duradouras podem permanecer, ainda que encravadas no deserto, diante dos milênios de história da civilização no planeta.
A cidade baiana de Senhor do Bonfim, centro da microrregião de mesmo nome, não somente teve seus inícios ligados ao deslocamento de pessoas, idéias e coisas, como tem permanecido fiel a essas origens, adaptando-se às diversas transformações impostas pelo meio físico, social, econômico e cultural.
Com efeito, já no final do século XVII, fundaram os franciscanos o Arraial de Missão de Nossa Senhora das Neves do Sahy, centro regional de catequização, isto é, de divulgação, transposição de idéias, da mentalidade cristã para a indígena. Na mesma época, no litoral do Brasil, a monocultura latifundiária e escravagista da cana-de-açúcar, voltada para o mercado internacional, estava a exigir a criação de gado destinada ao fornecimento de carne e força de tração para os engenhos e populações direta ou indiretamente ligadas a estes, ao passo que a descoberta do ouro da Jacobina e a conquista do rio São Francisco desenvolveriam ainda mais o potencial da região ao povoamento local e à integração inter-regional.
Nesse primeiro período, a existência, junto à Estrada das Boiadas, de uma lagoa intermitente – abrigo, repouso e refrigério de gado e tropeiros em demanda do São Francisco, das minas de ouro e do litoral – deu origem a um núcleo de povoamento voltado, cada vez mais, ao comércio. Tal núcleo, no decorrer da história colonial do Brasil, foi crescendo e tendo sua importância e as solicitações de seus habitantes reconhecidas pela Coroa portuguesa, que o elevou a Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera, em 1750, e a Vila Nova da Rainha, em 1799, antes que viesse a conquistar, já no ocaso do Império brasileiro, a elevação a Cidade do Senhor do Bonfim, em 1885. São dessa longa fase inicial a ereção de dois dos símbolos maiores dos poderes atuantes em Bonfim desde então: o edifício da Igreja matriz, de 1755, e o da Câmara e Cadeia, de 1845, atual sede da Prefeitura Municipal e até recentemente sede da Câmara de Vereadores local.
Novo período iniciou-se em 1887, com a construção do ramal ferroviário ligando Itiúba a Bonfim e da antiga estação de trem, o que multiplicou o potencial transitivo da cidade pela velocidade de deslocamento, capacidade de transporte e força de tração da máquina sobre trilhos. Aliás, o desenvolvimento espacial da via férrea acompanha – e mesmo o ultrapassa, ramificando-se a partir dele, o traçado da antiga Estrada das Boiadas, haja vista a posterior abertura de novos ramais ligando Bonfim a Juazeiro, depois a Jacobina (em 1920, com sub-ramal para Campo Formoso) e a Itaberaba-Iaçu (em 1951), os quais colaboraram para a integração entre as cidades do interior baiano em escala nunca antes vista.
A era do trem favoreceu amplamente a vida local e tornou o povo bonfinense consciente de seu valor frente ao meio externo, inclusive o nacional, o que pode ser exemplificado por acontecimentos memoráveis, tais como a primeira adesão municipal à República na Bahia (em 1889, e antes mesmo de Salvador), insuflada pelo Dr. José Gonçalves; a própria eleição deste como Governador do Estado (um ano após ter ocupado o cargo por nomeação); o discurso de Rui Barbosa, de importância nacional, em 1919; a transferência, de Salvador para Bonfim, em 1920, da sede do 3º distrito do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), responsável pelos Estados da Bahia e Sergipe; a fulgurante ascensão de Pedro Amorim, um dos maiores pontas-direitas do futebol brasileiro de todos os tempos, além de outros fatos que marcaram uma época de ouro para a cidade, seu apogeu econômico e cultural, o qual pode ser simbolizado pelo belo edifício da nova estação ferroviária, construída em 1944 e ainda hoje em funcionamento, embora sem o brilho de outrora.
Esse período glorioso viu nascerem, porém, os próprios elementos que o sepultariam, tais como a primeira estrada de rodagem (para Uauá), concluída em 1927, um ano após a vinda do primeiro automóvel, e o primeiro campo de pouso, de 1939, ano seguinte ao da visão do primeiro avião a cruzar os céus bonfinenses. As novas modalidades de transporte, sobretudo a rodoviária, impuseram-se a partir dos fins da década de 60 do século XX, após a inauguração da rodovia Lomanto Júnior, que também tendeu a acompanhar o percurso da Estrada das boiadas e que deu origem à era do asfalto. Em contato com a região e com o mundo, via rodovia e televisão, Bonfim permaneceria como ponto de passagem, mas com a concorrência crescente de novos e mais próximos polos, sobretudo o de Juazeiro-Petrolina, o qual detém uma via de passagem a mais, que a natureza negou a Senhor do Bonfim desde sempre: a via fluvial.
O permanente caráter transitivo, aliado a elementos como a relativa escassez de água, a diminuição gradual do território e a ascendência do setor de serviços, liderado pelo comércio, sobre a economia local dão a tônica da história de Bonfim, dos primeiros tropeiros até os dias de hoje. Muitos desafios foram vencidos; outros, não; os mais duros, deixados para o futuro do pretérito pelas gerações passadas e para o futuro do presente pela geração atual. Mas sempre desponta nos céus de cada presente da história de Senhor do Bonfim uma luz essencial: assim como foi pioneira em aderir à República teve, nas eleições municipais de 2000, juntamente com outras seis, a coragem de ousar navegar contra a corrente de mais de quatrocentos municípios baianos que entregavam-se há décadas aos desejos de uma pequena dinastia. E essa coragem de mudar periodicamente, contra tudo e contra todos — que tem demonstrado através de sua evolução — é o maior patrimônio que o passado e o presente legam à contrução futura de uma nova história.
(Por Waldísio Araújo. Escrito em 2001 e publicado originariamente, a pedido de seu pai, como Encarte Especial na revista Eleadois — Revista dos clubes de Lions do Distrito LA-2, nov/2001-fev/2002. Na fotografia, escadaria de acesso à estação ferroviária de Senhor do Bonfim)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:56
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