À HISTÓRIA O QUE É DA HISTÓRIA
A História não pode ser Ciência, ao menos no sentido de corpus de relações gerais abstraídas do mundo empírico após a validação ou negação de hipóteses de trabalho sucessivas. E não pode ser Ciência justamente porque TUDO é digno de História e ela não pode conhecer integralmente este "tudo", o que a obriga a selecionar de modo diferente da seleção científica: a História seleciona a contragosto, pois não pode falar tudo o que gostaria sobre o contexto do objeto; a Ciência, ao contrário, o faz voluntariamente, porque quer abolir justamente esse contexto. A Lei de Newton abstrai do sol e de uma cebola a sua massa e passa a considerar apenas esta última; a História, ao contrário, interessa-se pela cebola enquanto forma peculiar de vida (História “natural”) ou enquanto elemento da cesta básica nazista durante a 2ª Guerra (História “humana”), e interessa-se pelo Sol enquanto estrela que difere das outras por dar luz e calor à Terra e energia a uma certa região ou por permitir ao planeta Netuno um ambiente gasoso; finalmente, o que não interessa a um historiador poderá sempre interessar a outro, de modo que para a História, enquanto modo de conhecimento, tudo é virtualmente interessante.
Por outro lado, a História não tem método científico nenhum e não descobre relações aceitávelmente generalizáveis, de modo que a explicação de um acontecimento sempre admite um número indeterminado de outras explicações possíveis. Claro que ela usa seus procedimentos, mas admite vários, e nenhum deles é propriamente histórico —, mais ou menos como o clínico geral usa do que der e vier para diagnosticar uma doença, usando de procedimentos científicos mas também de bom-senso, intuição, experiência pessoal, engenhosidade, autoridade de clássicos da Medicina ou mesmo tentativa e erro. Ademais, passada a fase positivista, a historiografia não mais tem procurado reconhecer-se como Ciência; ao contrário (como no caso dos historiadores Michel Foucault e Paul Veyne), tem se aproximado da Filosofia.
A História se afasta da Ciência porque, diferentemente desta, não tem um objeto específico e não tem um método aplicável de modo universal. O que não quer dizer que não seja rigorosa e que não possa pedir ajuda às ciências, mas ela só recolhe destas algumas conclusões, e não se interessa muito em saber se a erupção do Vesúvio tinha que acontecer geologicamente naquele momento em que soterrou sob cinzas as cidades de Herculano e Pompéia. Num certo sentido, pode ser interessante para o historiador saber da Medicina ou da Psiquiatria se a pressão alta do ditador "X" seria capaz de interferir na sua política agressiva contra os governos vizinhos, mas o historiador não vai se deter longamente a explicar os processos endócrinos, cardiológicos etc. do ditador, e tampouco tomaria a palavra da Medicina como prova daquela política ditatorial, pois sabe, como Nietzsche, que não há fatos, mas somente interpretações — ou seja, a Medicina não tem a ultima palavra, e a pressão alta provoca euforia em várias pessoas mas cansaço em outras.
A História é um modo de conhecer que se interessa pela queda de uma pedra, por exemplo; a Ciência se interessa pelas quedas em si, ou melhor, pela atração entre os corpos, independentemente das propriedades qualitativas do corpo que cai. Como resultado, a História deseja saber tudo sobre o acontecimento escolhido, e ainda que explicássemos "cientificamente", digamos, o fim da República Romana pelas necessidades inerentes ao escravismo antigo, ainda assim a História continuaria a interessar-se pelo nariz de Cleópatra ou pelos desenvolvimentos navais das galeras antigas. Já a Ciência se interessa pelo objeto apenas na medida em que este serve de suporte à abstração (condição para a quantificação, entre outras coisas) de uma ou outra propriedade como a massa, a velocidade, a carga elétrica etc. Não foi a maçã caindo que fascinou Newton, mas a consideração de sua massa, a convenção de que aquilo não era para ele, naquele momento, uma maçã mas um corpo pesado, "grave" (como diziam na época)... Foi o que o levou à concepção de uma força gravitacional mensurável e que valeria para uma maçã, para uma estrela, uma agulha, um homem ou um elefante. E isso implica uma forma diferente, científica, de abordar o campo de estudos:
1) A Ciência pode escolher abstrair do seu objeto justamente certas propriedades mais facilmente quantificáveis, o que explica o fato de a Ciência, ao contrário da História, ser largamente matematizada;
2) A Ciência pode mais facilmente construir modelos de comportamento do objeto de estudo, pois lhe é permitido ignorar certos fatores, como a resistência do ar, o atrito etc., ao passo que a História não pode se dar ao luxo de ignorar a resistência do ar no destino daquele campeonato de fórmula 1 ou deixar de especular se a irritação de Napoleão contra seu cozinheiro não teria de alguma forma arruinado sua concentração no dia da derrota em Waterloo;
3) Ao abstrair uma ou outra característica de seu objeto, a Ciência pode avaliar hipóteses acerca de objetos de difícil ou impossível manipulação, a partir de sua reprodução em menor escala mediante experimentos. Destarte, a possibilidade de surgimento da vida no planeta a partir da atmosfera da Terra primitiva pôde ser fundamentada pela experiência de Urey-Miller, mas a História não iria levar a sério uma reprodução mais ou menos laboratorial de uma relação social feudal;
4) A primeira consideração acima pode também se referir a uma visão probabilística da Ciência, pois estamos no campo do calculável. Claro que os acontecimentos históricos também podem ser tomados como eventos de probabilidade, mas ainda assim a História não se contentaria com uma probabilidade de 71,3% de chances de o Império Romano ter declinado devido à pressão externa dos bárbaros germânicos (aliás, duvido mesmo que se pudesse calcular tal probabilidade).
O que foi dito sobre a História deve-se ao fato de que aquilo que a fascina é a surpresa, pois somente os maus historiadores não percebem que não há uma só ou poucas formas de explorar a força de trabalho, de conceber deuses, de resistir à dor, de observar ou temer eclipses, de comemorar o Ano-Novo, de fazer revoluções, de cometer suicídio (para desmistificar um clássico sociológico) etc. Cada época, lugar, cultura têm as suas formas específicas até de perceber as coisas, e sabemos hoje que os romanos viam o céu como uma grande cúpula metálica, ao passo que nós o vemos como uma extensão infindável, e que os bons romanos jamais beijariam suas esposas sob o olhar das tropas ao despedirem-se (ao contrário do que mostram nossos filmes épicos "realistas"), mas beijariam sem maior escândalo uma prostituta ou um rapaz imberbe.
As "Ciências” Humanas, por seu turno, só são ciências no nome, por convenção acadêmica, e é por isso que algo como a Economia Geral não mais é levado a sério; e só são "humanas" enquanto acreditam que haja uma "natureza humana", algo que perfaria um "homem eterno". Ora, a Economia que os economistas realmente fazem não é História, realmente, mas isso para eles tem um custo: o de não ser tampouco Ciência... Poderíamos chamá-la de "Praxeologia" no sentido de von Mises, ou seja, um ramo do saber que não visa simplesmente o conhecimento integral do seu objeto, mas um conhecimento que responde a problemas específicos da ação humana numa dada época. E é assim que uma teoria econômica neoliberal será diferente de uma teoria econômica clássica, que diferirá de uma teoria econômica planificada (como a da ex-URSS) e em nada se assemelhará a uma teoria econômica adaptada ao antigo mundo greco-romano. Ao contrário da maçã que cai (para o físico clássico), os economistas não mais se interessam pelo comportamento de um mercado genérico — norte-americano, babilônico ou mundial — mas partem de sistematizações a partir de certos problemas estabelecidos em termos práticos, do tipo: "se pressupormos um mundo de mercado de concorrência perfeita, como melhor gerenciaremos a distribuição da renda?", ou: "Se queremos um modelo planificado eficaz, como faremos para que a coletivização do solo impeça a acumulação de riqueza em algumas comunidades em detrimento de outras?" De longe, esse esquema parece Ciência, e até descobre relações de validade geral, mas não se contenta com essas relações e, além disso, elas são condicionadas muito mais que pela resistência do ar ou pelo atrito: são condicionadas pela liberdade da ação humana, que pode burlar a Lei da Oferta e Demanda ou a lei do cão do lucro a todo custo (vide o "Potlach"); no final, a segunda não se aplica aos indígenas brasileiros pré-cabralinos e a primeira não se aplica ao Egito Antigo.
A Economia é ao menos algo autônomo, digno e útil, como o é a praxeologia intitulada Teoria dos Jogos. Mas as "ciências" humanas "clássicas" — como a Sociologia e a Antropologia cultural — são meras ficções acadêmicas, misturas, como alguém já falou, de uma História malfeita do presente, uma pretensa Ciência quantitativa ou mesmo qualitativa e uma praxeologia da crítica social; em suma, charlatanismo mantido pelas nossas instituições universitárias, eternas criadoras de fósseis intelectuais. Na verdade, o homem é cognoscível, sim, porque tem cultura e a mantém durante um tempo razoável, mas esse conhecimento não é científico porque freqüentemente o homem se reinventa e burla qualquer pretensa "constante" social, por mais empírica que seja.
Como no Foucault de As Palavras e as Coisas, diríamos que as ciências humanas, por se proporem como "humanas", baseiam-se na morte de Deus, desta vivem, e somente, talvez, a vindoura morte do homem irá torná-las esquecidas para sempre. Não existe CIÊNCIA Humana porque não existe o Homem eterno, e o que há em comum entre todas as manifestações do homem é o conhecimento banal de que todos temos de comer, dormir, transar, morrer etc., mas isso é muito pobre; o importante mesmo é COMO comemos, nos divertimos, dormimos, transamos ou morremos, pois, como dissemos, não há uma forma única de fazermos essas coisas. A História, pelo contrário, é a descrição da inventividade humana ou natural através dos séculos: entre o Neolítico e a atualidade as semelhanças são apenas ilusórias, e uma diferença só se explica por TODO o seu contexto, assim como nossa vida atual só se explica pelo nosso contexto, com o agravante de não podermos deduzir algo de contextos totalmente diferentes. Somente existem diferenças, e são estas que interessam à HIstória; toda regularidade é ilusória e só tem utilidade pedagógica.
Diante disso, é só observarmos mais detidamente o que fazem um antropólogo ou um sociólogo na prática. Veremos que eles fazem muitas coisas díspares e ligadas a áreas diferentes do conhecimento: que especulam filosoficamente e que descrevem historicamente, quando não fazem estatística, pesquisa de campo, pesquisa participativa ou proselitismo político. Apenas as universidades os fossilizam enquanto profissionais, e lhes servem de público. Como sugere Paul Veyne, basta eliminarmos os preconceitos acadêmicos que impedem que o historiador cuide do presente e dos povos sem escrita e teremos reduzido à inutilidade o que ainda chamamos “antropólogo” ou “sociólogo”, e eis que estes poderiam contentar-se em serem historiadores, e bons historiadores, como Max Weber o foi (ele sabia que o Idealtypus não é um método, mas uma heurística).
Finalmente, a questão que sobrevive é a dos pontos de vista, que nos recoloca a problemática seguinte: se dois historiadores, isoladamente (eles sequer ouviram falar um do outro), adotarem casualmente um mesmo ponto de vista, chegarão a conclusões semelhantes sobre o mesmo acontecimento que eles estudam? Ora, os cientistas chegarão a resultados idênticos porque sua área de estudo é cumulativa e eles têm um método que lhes permite o que chamamos “objetividade”. Quanto aos historiadores, chegarão a algumas conclusões semelhantes, mas o essencial é que a apresentação fará a diferença, de modo que um historiador poderá narrar ou descrever de forma mais rica em detalhes, rigor, psicologia das personagens, profundidade de pensamento, vivacidade de estilo etc. - o que reinsere a História também no mundo da Literatura.
(Waldísio Araújo, escrito em agosto de 2007)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:51
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