AS CIÊNCIAS SOCIAIS(*) COMO MISCELÂNEA
Desde o século XIX, hipervalorizamos social e intelectualmente o termo "ciência", a ponto de cada ramo do conhecimento humano hoje reivindicá-lo também para si, como se o não ser científico o destituísse de seriedade, rigor, utilidade ou verdade; e o resultado disso é que o termo se tornou cada vez mais impreciso, ocultando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre os saberes. Torna-se necessário, então, optarmos por uma noção menos inclusiva de Ciência e verificar qual a natureza dos demais ramos do conhecimento, a fim de que não fiquemos a falar por linguagens incompatíveis entre si.
As modernas considerações que conduziram a uma diferenciação entre a Ciência e outras formas de conhecimento nasceram da Crítica da Razão Pura (1781), obra precursora da moderna Epistemologia, em que Kant buscou estabelecer os limites legítimos do poder racional humano e cujo resultado mais importante para nós é o de que tal poder apenas pode concluir algo universalmente, mas com segurança, se apoiado numa experiência empírica ao menos possível. Isso fundamentava epistemologicamente a revolução científica que já durava cerca de dois séculos e que fora levada a cabo, entre outros, por Copérnico, Galileu, Kepler e Newton, apenas apoiados filosoficamente, de forma mais ou menos precária, pelo racionalismo cartesiano e pelo empirismo inglês.
A Crítica kantiana visava medir os poderes da razão em geral, mas suas premissas básicas e resultados permitem estabelecer algumas características específicas do pensamento científico moderno. Com efeito, além de racional, a Ciência moderna, enquanto vasta construção teórica, é dedutiva, e progride metodologicamente a partir da colocação de hipóteses verificáveis no mundo empírico e controláveis experimentalmente. Daí chamarmos comumente tal Ciência de "hipotético-dedutiva" e podermos suspender como não essenciais (ainda que importantíssimas) características como as do rigor formal ou a da quantificação, pois qualquer forma de conhecimento humano pode ser rigorosa e utilizar-se de linguagem matemática, legitimamente ou não.
Pela conceitualização acima emitida, temos que uma diferença fundamental entre Ciência e outros ramos generalizantes do saber (o mais importante dos quais é a Filosofia) é sua necessária ligação ao mundo empírico concreto, por trás de cujas variações ela busca encontrar algo que não varie ou que varie muito pouco. Destarte, não interessa ao cientista ACONTECIMENTOS como a queda de certa pedra, a colisão de dada partícula contra um núcleo atômico ou a moda de suicídios que assola ou assolou determinada região; tampouco lhe interessam considerações metafísicas sobre os conceitos de "queda", de "colisão" ou "moda", mas as relações de caráter geral que regem a atração de um corpo por outro (independentemente de tais corpos serem galáxias, planetas, átomos, amebas, cebolas ou homens); o inventário exaustivo, descritivo e explicativo das partículas que constituem as coisas e as forças gerais de ação e interação entre elas, ou as formas gerais de grupos humanos buscarem a auto-aniquilação orgânica. Para tanto, o cientista partirá da observação do mundo e poderá tornar mais precisa tal observação pelo recurso à experimentação mais ou menos controlada (laboratório, pesquisa de campo, pesquisa participativa etc.), restando, contudo, o problema de saber (agora, sim) se seu objeto permite ou não generalizações suficientemente precisas para garantirem um alto grau de confiabilidade capaz de permitir com certa segurança a extensão e o compartilhamento objetivo do conhecimento.
Tudo isso quer dizer que qualquer objeto poderia ser a priori digno da Ciência, independentemente de ser objeto humano ou não, e o século XIX acreditou intensamente poder fundamentar cientificamente as chamadas "Ciências Sociais", animado particularmente pelos sucessos prático-teóricos da Economia Política (que parecia descobrir "leis", fazer previsões e resolver problemas). No entanto, o decorrer do século XX mostrou que uma Economia generalizante é algo inócuo e que as Economias particulares apenas são eficazes quando orientadas para a resolução de problemas muito bem delimitados pelas necessidades da época, de modo que a partir da obra fundamental de von Mises (1949) — intitulada Human Action — vemo-nos no direito de substituir, para os assuntos humanos, o termo "Ciência" pelo muito mais preciso "Praxeologia", o que nos conduz de certa forma a uma retomada do projeto aristotélico de classificação dos saberes a partir, prioritariamente, de sua finalidade última, não simplesmente a partir do objeto estudado por cada uma delas.
Com efeito, podemos nos interessar pelos fatos do mundo (independentemente de sua natureza) de acordo com três fins básicos:
1) por si mesmos, porquanto qualquer fato pode sempre nos maravilhar e atrair nossa curiosidade por suas próprias especificidades, e não deixa de ser interessante acompanharmos e descrevermos a descida de um paraquedista que flutua suavemente ao sabor das correntes de ar;
2) enquanto meios para descobrirmos relações invariáveis ocultas, pois sempre será possível abstrairmos, do salto de um paraquedista, determinadas características também encontráveis na queda em condições próximas à da ausência de resistência do ar, para disso deduzirmos relações constantes aplicáveis a um corpo qualquer que caia. Aqui, ao contrário do item anterior, há uma desvalorização do contexto concreto em que o objeto se insere;
3) enquanto meios de intervenção prática no mundo, visto que de um avião de guerra poderemos sempre optar por despejarmos quer bombas quer paraquedistas, e a opção racional por fazermos apenas uma dessas coisas ou ambas ou nenhuma insere-se no contexto de estratégias de ação bem definidas mas que somente fazem sentido se levarmos em conta os fins almejados. Neste caso, o contexto concreto é levado em conta, mas apenas enquanto repositório dos meios e condições em que são dados os meios para atingirmos os fins almejados pela nossa ação.
Tendo em vista, pois, o conhecimento estritamente empírico — logo, deixando de lado a Filosofia, ao menos em sua vertente metafísica —, podemos tratar os mesmos objetos, respectivamente, quer de forma histórico-compreensiva (como na História ou na Geografia), quer científico-explicativa (como na Física ou na Bioquimica), quer praxeológico-estratégica (como na Economia); e isso pode irritar profundamente certos meios profissionais, mas com a vantagem de libertar os objetos de conhecimento de sua prisão em compartimentos estanques na medida em que cada objeto de conhecimento existente ou a construir-se pode ou poderá ser desenvolvido de três formas diferentes, ao menos a priori (se não o puder, isso se deverá ao próprio modo de ser do objeto, não mais ao modo de conhecê-lo).
O fato de muitos ramos do conhecimento humano estarem a acumular (acadêmica ou profissionalmente) o que diz respeito a outros tem ocultado de certos saberes sua importância e os tem mutilado. Vejamos o caso da História. Esta disciplina nasceu, com Heródoto, como descrição de algo bem contemporâneo ao seu autor, a saber, o conflito entre gregos e bárbaros, e ele a realiza pela mistura de narrativa da sucessão dos fatos e de descrição das suas condições quer atuais quer passadas; e quando fala do passado do mencionado conflito é para melhor descrevê-lo, pois seria sempre possível não reportar-se ao seu desenvolvimento no tempo. Da mesma forma, seu grande sucessor, Tucídides, consolidou o campo historiográfico como História do presente, ao tratar da contemporânea Guerra do Peloponeso — tão contemporânea que o autor veio a falecer antes que ela terminasse —, mas triunfava para o público o aspecto narrativo, e este sucesso em acentuar a linha temporal; e a extensão desse tratamento, sobretudo com os romanos, aos eventos do mundo passado fez com que fosse esquecido por séculos o direito de a História tratar do presente, e essa lacuna no campo histórico foi ocupada, a partir do século XIX, pela Sociologia (que tem levado em conta sobretudo a contemporaneidade rotulada, naquele tempo, de "civilizada") e pela Antropologia (que tem se ocupado prioritariamente dos povos a que antigamente ela própria chamava "primitivos"), que se auto-intitularam "científicas" e que, paradoxalmente, imiscuem-se na consideração de problemas práticos do ser social (inspirados na Economia, como dissemos), assim apropriando-se das tarefas intelectuais das praxeologias, até recentemente não estruturadas como tais. Destarte, as "Ciências" Sociais, longe de terem uma linguagem em comum e de evoluírem cumulativamente (como a Física, por exemplo, o faz), mostram-se como confusas miscelâneas mal integradas de História do presente, praxeologias dispersas e pseudo-ciências, ainda que isso não tenha impedido a eclosão de grandes e revolucionárias obras como a de Max Weber, que o mundo acadêmico insiste em não querer considerar como marco da disciplina histórica.
A História, repetimos, tem o direito de ocupar-se do presente e mesmo, se o quiser, de rejeitar como não essencial a ela a abordagem via sucessão temporal, pois o imprescindível para a descrição de um objeto é á noção de "duração", não a de "tempo": o fato de uma estrutura qualquer durar não quer necessariamente dizer que tenhamos que narrar as fases de seu desenvolvimento no tempo; com efeito, por que tem o historiador o direito de descrever ou explicar causalmente a democracia grega antiga, mas teria que deixar ao sociólogo ou ao "cientista" político a descrição e explicação causal da democracia atual? Ora, apenas as convenções acadêmicas (que dizem que a História não tem direito ao presente nem às estruturas) o impedem, e essas convenções existem pelo motivo muito simples de que um grupo acadêmico-profissional cada vez mais numeroso nasceu, vive e é mantido pelo prestígio social e intelectual da palavra "Ciência", e é atraído pela possibilidade de lucrar com o monopólio do estudo do presente e das estruturas, mantido mediante projetos vendidos ao Estado, às universidades ou às grandes empresas públicas e privadas; vivem, em suma, da ilusão acadêmica de que o "cientista" social teria tanta importância prática e teórica para a sociedade moderna quanto o físico nuclear, o tecnocrata em geral ou o farmacólogo — ilusão que mantém uma rigidez institucional que prejudica tanto a História quanto as praxeologias, além de desvalorizar a própria noção de "Ciência" pela aplicação indiscriminada (com a consequente confusão conceitual) desta palavra a qualquer tipo de saber.
Ao contrário da Economia ou da Teoria dos Jogos (que são praxeologias que se ocupam de problemas impostos por imperativos da ação humana), a Sociologia ou a Antropologia são estruturas que não se sustentam epistemologicamente, mas apenas mediante a máscara institucional que as universidades e, agora, a mídia, lhes proporcionam. Na melhor das hipóteses, despi-las de seus véus de falsa cientificidade e de seus resquícios praxeológicos poderia até revelá-las como boas historiografias do presente humano e de suas estruturas (presente e estruturas que elas se acham no direito de tomar para si de forma exclusiva), da mesma forma que eliminar dos livros bíblicos dos Reis ou das Crônicas as explicações dos sucessos ou fracassos dos reinos de Israel e Judá baseadas na recompensa ou punição do deus Javé deixaria como resíduo belas páginas de História hebraica.
"Mas", objetar-se-ia, "se a Ciência — assim como a História ou as praxeologias, como foi dito — pode escolher livremente seu objeto tanto entre os fatos físicos ou biológicos quanto os culturais, por que não poderia haver uma Ciência Humana?" Ora, poderia haver uma tal "Ciência", sim, mas ela seria na melhor das hipóteses supérflua, pois diria apenas o que já sabemos sem ela: que o homem nasce, respira, reproduz-se, alimenta-se, tem idéias e linguagem, constrói mundos simbólicos, trabalha ou morre... Mas o essencial seria elidido por essa Ciência, a saber, o fato de que cada época, cada lugar, cada cultura ou civilização têm formas inventivas próprias de alimentar-se, ter idéias, entregar-se a utopias, produzir bens, educar, suicidar-se etc., e que nenhum princípio de razão suficiente determinará que o fará desta e não de outra forma ou que haverá um número fixo de formas possíveis, porque, além de os contextos concretos não pararem de mudar, o homem (apesar das aparentes repetições culturais) não tem formas eternas de fazer todas essas coisas, sempre inventará formas novas e caberá à História, não à Ciência, o elencar, descrever e explicar (ou melhor, referir a todo o seu contexto) essas diferenças no tempo e no espaço, incluindo o aqui e o agora — contanto, é claro, que o faça com veracidade, pois tudo o que interessa à História é digno dela, desde que verdadeiro, ou melhor, que aconteça ou tenha acontecido.
Finalmente, poder-se-ia objetar que a própria História seria em si científica na medida em que a análise e crítica documentais (o que tradicionalmente chamamos "Erudição", em oposição à "Síntese", propriamente chamada "História") já consideraria CIENTIFICAMENTE os documentos e vestígios. Porém, além de isso também estender abusivamente o termo "Ciência", o papel da Erudiçao histórica (importantíssimo, aliás) é o de simplesmente fixar os vestígios do passado (e do presente, por que não?) em sua autenticidade, garantindo a verdade intrínseca do vestígio que o historiador propriamente dito utiliza ou utilizará na construção de sua síntese histórica. É a partir do documento tomado como autêntico (o que, aliás, não necessita de Erudiçao, posto que havia História antes dela) que o historiador constrói seu objeto — isso quando ele não cria seus próprios documentos, como é o caso da chamada "pesquisa qualitativa", de que tanto se ouve falar recentemente e que tem sido apropriada pelos "cientistas" sociais como mais um aríete para invadirem campo alheio, esquecendo-se ou fazendo esquecer que o procedimento da História em seu nascimento como saber (em Heródoto, Tucídides ou Xenofonte) era evidentemente qualitativo, ainda que com um rigor não comparável ao dos tempos atuais. A não-essencialidade da Erudição salta aos olhos se pensarmos que um documento não comprovado por ela como "autêntico" ainda é a priori um documento perfeitamente autêntico para ao menos uma síntese histórica possível: a dos documentos de autenticidade duvidosa.
Para o mundo acadêmico dos "cientistas sociais" é melhor deixar tudo como está: mais empregos, mais prestígio e maior delimitação do objeto... Para o mundo da historiografia, porém, isso é catastrófico, pois mutila o campo dos acontecimentos e reduz suas potencialidades. Ora, bastaria dar à História seu direito de estudar os povos sem escrita — a que muitos chamam "primitivos" — para tornar supérflua a Antropologia Cultural (considerando ainda que a História usa qualquer método e, portanto, poderia usar as atuais técnicas antropológicas também); da mesma forma, permitir à História estudar os acontecimentos e estruturas atuais das sociedades com escrita — as chamadas "civilizadas" — torna supérflua a Sociologia. Ora, hoje sabemos que a escrita não muda a natureza das sociedades, assim como o passado não é essencial à narrativa e a idéia de progresso é só um mito. De qualquer modo, poderemos com isso, finalmente, eliminar o mau-hábito de diferenciar os saberes mediante o critério do objeto estudado: a História poderá ser então conhecimento de qualquer tema, humano ou não, em sua especificidade; a Ciência, de qualquer tema considerado em sua generalidade. O critério baseado nos objetos de estudo — que começa por distingüir perigosamente o ser da cultura do ser da natureza — viria apenas num segundo momento, e neste os objetos humanos não mais seriam restringidos numa Ciência (onde se tornam mortos e alheios à inventividade humana), mas livres para a ação nas praxeologias existentes ou a serem criadas.
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NOTA:
(*) Não levamos em conta, neste artigo, quaisquer diferenças entre Ciências Sociais e Ciências Humanas e usaremos sempre o primeiro termo porque sabemos, desde os gregos, que tudo o que é humano é social, ainda que associássemos o social ao coletivo e o humano ao englobamento de coletivo e individual (e os limites entre indivíduo e coletividade talvez sejam apenas ilusórios). De resto, não nos interessa e não nos incomoda, aqui, o fato de serem elas consideradas "sociais" ou "humanas", mas o de serem consideradas "ciências".
(por Waldísio Araújo, escrito em março de 2008)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:48
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