UMA TENTATIVA DE ESQUEMATIZAÇÃO
A fim de fundar uma Filosofia que coloque a razão em relação direta com as coisas, não intermediada por visões de mundo metafísicas ou científicas, Husserl busca ultrapassar a atitude usual do senso comum e da ciência, atitude essa que consiste em conceber um eu psicofísico que se relaciona enquanto sujeito (de pensamento, de desejo, de percepção, de repulsa etc.), mediante um ato psíquico qualquer, a um objeto transcendente à consciência, de acordo com o seguinte esquema (convencionamos que os elementos entre colchetes são transcendentes entre si):
[sujeito – conhecimento] <=> [objeto]
e, mais concretamente:
[sujeito psicofísico – ato psíquico] <=> [objeto transcendente]
Exemplo:
[eu – vejo ou relembro] <=> [o mouse sobre a mesa do micro]
Para ultrapassar esse esquema (que se atém à dualidade sujeito-objeto), Husserl propõe uma epoché, isto é, uma colocação entre parênteses de tudo o que no ato mental poderia estar relacionado à afirmação ou reconhecimento de uma realidade subjetiva (o meu eu psicofísico: a posição que ocupo em relação ao mouse, meu estado de humor, a finalidade em abordar o mouse, etc.) ou de uma realidade objetiva (o objeto transcendente: o tamanho do mouse, sua tonalidade de cor, o som que emite ao ser percutido, sua utilidade específica etc.), do que resta o ato psíquico em si (o ver ou relembrar enquanto tais), o qual não faz sentido se não for ato de uma consciência que se correlaciona com um objeto independentemente da existência de ambos (o ato de ver implica uma presença de algo, uma extensão, a possibilidade de interação com ele etc.; o ato de relembrar implica um distanciamento temporal, a persistência de vestígios etc.).
Tal inter-relação caracteriza-se então como uma “intencionalidade” no sentido usado por Brentano, ou seja, pode ser descrita como a forma pela qual a consciência se refere a objetos ainda que estes inexistam na realidade. Por exemplo, meu ato de perceber o mouse sobre a mesa do micro tem uma estrutura diferente do ato pelo qual eu relembro o mouse, e isso é verdadeiro ainda que eu substitua o pensamento ou lembrança do mouse pelo de uma sereia ou do Saci-Pererê. De qualquer forma, o que importa é que o ato psíquico tem que poder se relacionar com um objeto, não que este tenha que ser real. Assim, o esquema passa a ser o seguinte (os colchetes indicam que todos os elementos são agora imanentes à consciência, não transcendentes; os parênteses indicam que os elementos dentro deles são abstraídos de sua realidade):
[(consciência pura) – vivência intencional – (fenômeno da consciência)],
Exemplo:
[(consciência) – vê ou relembra – (algo em geral)]
que em termos de Husserl se traduz assim:
[(consciência transcendental) – nóesis – (nóema)]
Essa epoché traduz a superação da dualidade sujeito-objeto (substituída por uma imanência do objeto na consciência), desde que consideremos essa dualidade foi submetida a uma dupla “redução”:
a) uma redução “eidética” colocou entre parênteses o que havia de individual e contingente, ou seja, factual nas vivências intencionais, permanecendo como resíduo a essência (eidos) dela e do fenômeno, estruturalmente universal e necessária. A técnica para essa redução eidética consiste em encontrar aquilo que não se pode suprimir sem que se destrua o objeto, o que se faz mediante a imaginação.
b) uma redução “fenomenológica” (ou transcendental) colocou entre parênteses a própria consciência, permanecendo como resíduo a consciência transcendental que, porém não é um cogito cartesiano, mas uma correlação entre um cogito e seu objeto, de modo que as vivências intencionais multiplicam-se enquanto permanece um “eu puro”.
Assim, a Fenomenologia reduz a antiga transcendência entre sujeito e objeto a uma pura inter-relação entre os conteúdos virtuais da consciência (nóema) e os atos pelos quais estes se expressam (nóesis), ambos simples pólos opostos mas inseparáveis das vivência intencionais. Temos, pois, na vivência da percepção do mouse, e de forma necessária, a vivência de um reconhecimento do mouse e, daí, a certeza imediata de que relaciona-se à percepção (nóesis da vivência) de algo não apenas o reconhecimento deste algo, mas também uma duração, uma presença etc., pertencentes ao nóema da mesma vivência.
O resultado das reduções dão à Fenomenologia um conteúdo implícito que é vivido intuitiva e imediatamente na consciência, de tal forma que os atos com que a consciência se relaciona com os objetos correspondem às formas como os objetos se dão à consciência. Assim, por exemplo, uma crise ministerial, uma dor de dentes, uma gota de orvalho ou um pesadelo não serão apresentados à consciência de forma indiscriminada, mas de acordo com os tipos de vivências de que a consciência dispõe.
Falar de diferentes tipos de vivências é falar de diferentes tipos de objetos, antes que vice-versa; daí que a intencionalidade de uma vivência determina o objeto da vivência, este depende dela, não o contrário. Em suma: a consciência constitui os objetos e, portanto, o mundo; um mundo que, aliás, não nos aparece como existência, mas como mero fenômeno.
A Fenomenologia transcendental conduz à fundamentação de uma Ontologia integral, condicionando as formas como o mundo aparece e o sentido de que este se torna dotado. E pelo fato de os modos de apresentação coincidirem com os modos de ser das coisas, dilui-se finalmente a diferença entre essência e aparência.
No alto, à direita, retrato de Edmund Husserl, pai da Fenomenologia.
(por Waldísio Araújo, escrito em 2004)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:40
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