A FILOSOFIA SOBRE OS OMBROS DA CIÊNCIA
Nosso século (como o de Schopenhauer) tem um grande fascinio pela ciência empírico-dedutiva, mas isso às vezes nos faz ocultar o fato de que a ciência não tem direito, epistemológicamente falando, de ultrapassar os limites do verossímil e do que possa ser justificado em termos empíricos. Assim, por exemplo, sabemos que dois corpos se atraem gravitacionalmente com forças cujos módulos são diretamente proporcionais às respectivas massas e inversamente proporcionais ao quadrado da distância entre eles; contudo, a ciência não sabe nem pode saber o porquê de serem obrigadas a se atraírem e, mais ainda, o porquê de elas o fazerem de acordo com essas relações quantitativas; a ciência aceita, portanto, o fato incontestável (até prova em contrário) de que tudo tem um impulso para agir gravitacionalmente, mas não dá conta da natureza íntima desse impulso; porém, a Filosofia e a arte podem, respectivamente, abordar especulativa ou esteticamente esse impulso.
Entenderemos melhor Schopenhauer se observarmos na natureza e no homem que o impulso está em toda parte, não somente na gravidade: as cargas elétricas têm impulso de atração ou de repulsão, as partículas atômicas se juntam para formarem átomos e, sucessivamente, moléculas e corpos; o universo se expande; os seres vivos buscam reproduzir-se e lutam entre si, e as pessoas humanas têm ambições e desejos, criam Estados e máquinas de comunicação ou de guerra... Em suma, o que nosso empirismo pode mostrar é que tudo o que existe (que representamos como seres) tende para algo, nada é estático no universo, tudo tem um impulso para estender-se para além de si mesmo, o que nos dá a impressão de que tudo é dotado de algo como uma vontade imanente, este impulso de que, como dissemos, a ciência conhece bem as manifestações mas não o conhece em si mesmo, enquanto impulso, porque ele subjaz a todo empírico (logo, é incognoscível). A este impulso, Shopenhauer chama "Vontade".
A Vontade não implica uma finalidade última, e não há no universo nenhuma permanência, mas tudo muda, tudo surge, exerce e sofre ação e reação e perece, porque todas as coisas encontram obstáculos nas ações de todas as outras coisas. Trata-se de uma Vontade que se dilacera a si própria eternamente, no dilacerar-se das coisas, numa fúria insana de criação e destruição que apenas cria ordem ilusória e momentânea, de acordo com a configuração das forças - ordem que mais cedo ou mais tarde se desagrega para dar lugar a outra ordem tão ilusoria e momentâneamente quanto a anterior, pois a Vontade não se extingue, ela é irredutivelmente insaciável. Há pois, uma diferença entre o mundo como ele é em sua substancialidade, ou seja, enquanto Vontade (que não se submete a tempo, espaço ou categorias kantianas, logo não é cognoscível em si), e o mundo tal como nos aparece, ou seja, enquanto representação mental (daí o título da obra mais completa do filósofo: O Mundo como Vontade e Representação).
Por mais que nossa REPRESENTAÇÃO do mundo o encare como cosmos (universo ordenado) relativamente estável, seguro e permanente, o mundo enquanto VONTADE é caos, luta permanente, dor, tédio, escravidão, angústia, frustração, fugacidade, insignificância, sofrimento, morte. Contudo, Schopenhauer conhecia bem o Budismo e acreditava que a cura contra o sofrimento seria a eliminação da vontade... Ora, como nossa representação do mundo também insere-se na luta universal, ou melhor, está interrelacionada direta ou indiretamente com todas as ações que se digladiam no universo, então nada está isolado do todo, nem mesmo a vontade individual. Daí o filósofo acreditar que uma abdicação da vontade poderia libertar da dor tanto o indivíduo quanto o universo inteiro, pela procura ascética da imersão de todas as coisas no nada, na paralização total de todo o fluxo, de toda a vontade de viver, no engajamento da Vontade universal numa extinção de seu próprio impulso.
A Arte seria a primeira forma schopenhaueriana de extinção da vontade em geral, e isso porque cria mundos que nos afastam, ainda que imperfeitamente, do mundo real, governado pela Vontade universal; como corolário desse princípio, a Música seria a arte superior, pois o prazer que ela proporciona não parte da imitação do real (como sói acontecer com as outras artes). Contudo, ainda há na arte um sentimento de prazer, logo a realização de um desejo, motivo pelo qual ela ainda não pode promover a libertação do mundo. Daí a necessidade de uma segunda forma de extinção da vontade: a vida moral, uma vida ascética que, renunciando aos sentidos, aos desejos, ao prazer, ao corpo, em suma, ao mundo, busque o niilismo total que finalmente mergulhará o universo no nada sem desejos, sem domínio, sem dor e sem morte — porquanto sem vida (que é, aliás, a principal manifestação da Vontade, a qual, por isso, é chamada pelo filósofo de "Vontade de Viver").
**********
A filosofia de Schopenhauer influenciou fortemente a de Nietzsche que, na juventude, entusiasmou-se com sua filosofia até tornar-se capaz de ultrapassá-la após as Considerações Inatuais. Para este, a tendência ocidental ao niilismo denuncia a vitória de um ideal ascético que insulflou no homem um conformismo de rebanho, uma moral do fraco que atualmente prevaleceria sobre os antigos ideias de beleza, força, vigor e vida. O homem ocidental estaria abdicando, sobretudo após a Renascença, de conduzir suas forças constitutivas até onde elas podem, o que seria um efeito da vitória das forças reativas sobre as ativas, vitória levada a cabo historicamente pela introjeção milenar da moral cristã na cultura. Nesse contexto, Nietzsche retém de Schopenhauer o Impulso, a Vontade, mas uma vontade que jamais poderá saciar-se (como a do antigo mestre) mas tampouco poderá cair num niilismo total, pois (no caso do homem*) pode até querer o nada, mas não pode não querer algo — e isto porque ela não é simplesmente Vontade de Viver (termo usado por Schopenhauer), mas Vontade de Potência, termo cunhado por Nietzsche para expressar o impulso das forças do universo a exercer o que podem, como a gota de tinta a espalhar-se pelo líquido num recipiente. Ao contrário de Schopenhauer, Nietzsche preconiza a entrega ao impulso e à libertação dos instintos indestrutíveis que foram aprisionados no íntimo do homem e que estão por isso a voltar-se contra ele (em forma de neuroses, depressão ou automutilação, por exemplo, o que nos faz lembrar Freud); prega a ativação ao máximo da vontade de potência, sobretudo nas manifestações mais elevadas do homem, como no caso das artes; sugere que se aja de forma sempre positiva e intensa, de tal forma que se o faça com o desejo insaciável de que cada ato a ser cumprido possa voltar a cumprir-se eternamente (idéia do Eterno Retorno). Em suma, trata-se não de extingüir a vontade sob o pretexto de fazer cessar o sofrimento e a dor, mas de glorificar a estes mediante a idéia de uma vontade que, levada às últimas consequências de sua atividade, lança-se ao mundo com tal ímpeto que considera a dor e o sofrimento meras reações proporcionais das forças contrárias que, como eles, devem ser ultrapassadas.
Portanto, o que moveu a filosofia de Schopenhauer (e fundamentou a procura de Nietzsche) foi o problema de saber o porquê de tudo ter um inerente impulso, um sair de si mesmo que não se explica pela noção hegeliana de alienação nem pelos postulados e descobertas científicos. Diante desse problema, vislumbram-se duas alternativas de resposta (talvez haja mais): matar o impulso imanente mediante uma transcendência qualquer ou viver as últimas consequências de sua imanência. Entre a Vontade de Viver e a Vontade de Potência, o nosso século agoniza...
Na ilustração, O filósofo e seu cachorro, caricatura de Wilhelm Busch.
(por Waldísio Araújo. Escrito em julho de 2007)

A obra textual acima está licenciada sob uma
licença Creative Commons.
Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:39
Alexandre Anello (alexandreanello@gmail.com) escreveu, no dia 21/12/2009, às 04:39:46:
Bruna (pedagogabruna@yahoo.com.br) escreveu, no dia 11/01/2009, às 15:51:54:
suzie (suzane_g@hotmail.com) escreveu, no dia 23/09/2008, às 21:16:45: