PARA UMA SINFONIA DE SILÊNCIOS
Ao longo da vida, andei pensando, conversando e escrevendo sobre assuntos diversos relativos às coisas do mundo, ao conhecimento dessas coisas e ao ser que julga conhecê-las. Nos três casos, descobri (claro que sem provas) que não há como encontrar critérios de verdade objetivos, imparciais, eternos e universais para pensarmos e escrevermos sobre o eu, o homem e o mundo. No entanto, o fato de alguns de nós sabermos disso não parece suficiente para evitarmos, abaixo do nível da consciência, aderirmos a critérios de valor instalados em nós por relações de forças. Em outras palavras: destruamos essa dualidade tola entre o dentro e o fora, pois o fato de só podermos ver o mundo subjetivamente não elimina a hipótese de sermos no fundo constitudos apenas por forças bem objetivas.
Acredito que os critérios de valor implícitos em todo pensamento, ação e discurso devem ser explicitados a fim de que melhor saibamos se estamos ou não vivendo o que podemos viver. Ademais, talvez a dificuldade maior dessa empresa resida no fato de termos que partir de nosso eu atual e não de ser este mesmo eu aquilo que nos oculta de nós mesmos. Como, porém, a escrita deixa no papel muito do que o autor não diz de si mesmo, resta a possibilidade de capturar nas entrelinhas desse não-dito aquilo que (por tão íntimo) não pôde externar-se com palavras.
Quererá isso dizer que só os livres buscarão libertar-se e que eles somente conseguirão algo se sua busca não tiver objetivo algum? É o que creio, e minha crença é tudo o que tenho de precioso e raro, a ponto de só servir para mim.
De qualquer forma, permanece a possibilidade da escrita. Para que extingui-la?
(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:15:11