CENAS DO QUE O OLHO NÃO VIU
1
AMADEUS (Milos Forman, 1984). Salieri enlouquece por ver seus maiores sonhos realizados... por Mozart. Por sua vez, este também enlouquece à sua maneira por aproximar perigosamente e em excesso a sua arte à sua vida. Em ambas as personagens a razão aparece como simples instrumento — o que talvez jamais deveria ter deixado de ser para o homem. E tudo isso é expresso sob uma forma impecável, coerente, do enredo ao desempenho dos atores. Enfim, um filme que nos devolve o direito a falarmos em "perfeição".
/**********\/**********\
2
NARRADORES DE JAVÉ (Eliane Caffé, 2003). O gênero histórico foi fundado contemporãneamente à separação entre razão e mito: a História seria então, desde Heródoto, eliminação da fantasia no relato, com embasamento científico na empiria. Este filme, contudo, demonstra que tal eliminação é inócua, pois toda verdade é fantasiosa e todo relato já se reporta a um ou mais relatos, de modo que todos eles co-habitam a imaginação, inclusive aquela que julga existir um relato mais verdadeiro.
/**********\/**********\
3
DIÁRIO DE MOTOCICLETA (Walter Salles, 2004). Estudo sobre o que torna possível um grande homem como "Che" Guevara. Poder-se-ia, parodiando James Joyce, rebatizá-lo de "Retrato do herói quando jovem"... Como se tornar um grande guerreiro frente a si mesmo ou a um povo se se não salta um abismo para além das próprias convicções, dos próprios medos ou mesmo do próprio corpo? O enredo termina no ponto em que Guevara está pronto para estrear na história do século XX... Para que mesmo passar daí, se a sequência dos eventos perfazem uma outra história e os atores de ambas diferem radicalmente porquanto criados por autores diferentes? Tecnicamente, o filme não é uma revolução, mas estará coerente consigo mesmo caso um dia venhamos a saber que precedeu uma.
/**********\/**********\
4
ZORBA, O GREGO (Michael Cacoyannis, 1964). Clima sombrio, tempestade, miséria, desilusão, desastre, medo, morte perfazem um abismo sobre o qual urge aprender a dançar — aprender, como nas palavras de Nietzsche, com cem espadas de Dâmocles pingentes sobre a cabeça. Por trás disso tudo, a necessidade de ultrapassar-se uma arte que busca de forma doentia uma estabilidade que não sabe dançar.
/**********\/**********\
5
PINK FLOYD: THE WALL (Alan Parker, 1982). Um mundo schopenhaueriano em que uma fina película de cultura recobre o abismo sobre o qual vivemos. Sobre essa lâmina de gelo, construímos castelos com grossas paredes, cada vez mais pesadas, a nos definirem como "indivíduos" — paredes cujos tijolos são colocados paulatinamente pela várias relações sociais, das educacionais às sexuais. Ao final, os mais sensíveis, à beira da loucura, já não mais se satisfazem com sexo, drogas, rock-and-roll: o caminho está aberto para a intrusão dos vermes da demolição violenta e para a barbárie. Ao final, o indivíduo é condenado a ter rompidas as mesmas paredes que o constituíram como tal, para que o social reine definitivamente sobre o homem que aponta a si mesmo com o dedo da Loucura. Schopenhauer, Ronald Laing e (paradoxalmente) Foucault se reencontram nesse filme subestimado enquanto filme. Imagens feéricas, denúncias contundentes, integração entre desenho-animado e cinema, trilha-sonora brilhante... Enfim, ninguém entendeu que se estava a criticar não propriamente os vários conformismos modernos e pós-modernos, mas também os próprios não-conformismos...
/**********\/**********\
(por Waldísio Araújo. Escrito a partir de 24 de março de 2008)

A obra textual acima está licenciada sob uma
licença Creative Commons.
Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:12
mauro brecho (brecho05@hotmail.com) escreveu, no dia 11/02/2009, às 20:00:32: