Waldísio Araújo

A FALÊNCIA DO ROMANCE HISTÓRICO

UM EPISÓDIO DA PROCURA PELA VERDADE

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Ilustração de Gustave Doré para Idílios do Rei, obra de Lord Tennyson

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A passagem, na primeira metade do século XIX, do prestígio do Romance Histórico romântico (exemplificado na obra de Walter Scott) à Novela realista (representada por Balzac) não diz respeito somente ao advento da preferência pública pela descrição do presente em detrimento da do passado, mas também uma exigência por maior veracidade, própria da época. Assemelha-se estranhamente à ultrapassagem das novelas de cavalaria pela cervantina, que antecedeu o Realismo em cerca de dois séculos: em ambos os casos trata-se de uma reação aos excessos da fantasia, de uma imaginação entregue a suas próprias regras, e em ambos tende-se a tornar confuso o limiar entre verdade e ficção, mas por processos muito diferentes: Cervantes, pela representação de uma realidade louca (D. Quijote lê o mundo com a mesma "gramática" de insanidade com que este o lê, mas com "vocabulários" diferentes); Balzac, pela imitação de relações sociais consideradas "reais" (Eugénie Grandet não é louca, é um tipo social que a época vivencia como "previsível"). De forma surpreendente, ambos exploram a noção de História e fingem fazer historiografia, quer pela onipresença da personagem historiadora cervantina Cide Hamete Benengeli, quer pela alardeada competição balzaquina ao registro civil, de feição francamente historiográfica.



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A glória e difusão da Novela realista do século XIX deve-se provavelmente à convicção íntima de que haveria uma natureza humana imutável por trás das idiossincrasias de qualquer época retratada. Logo, por que não retratar o presente com o mesmo arsenal com que o historiador faz (segundo eles) reviver o passado? Ora, tal visão satisfazia tanto aos objetivos miméticos realistas quanto ao projeto positivista de uma "ciência" do homem, e a vindoura novela naturalista até viria a encampar ambas as tendências: a novela passava a estudo de caso de quase "leis" que regeriam as relações sociais e as frustrações individuais, e ambos abandonariam o gênero histórico a sua própria sorte por considerarem que o passado não poderia ser estudado com a imediaticidade com que se poderia (julgava-se) estudar o presente.



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3


O Romance Histórico perdeu desde então a maior parte de seu atrativo frente ao público, e hoje é muito menos lido em alguns países do que a própria História (que assumiu sob a escola francesa dos Annales uma popularidade nunca antes imaginada) e outros gêneros documentários. Uma explicação para esse fenômeno cultural recente é que a historiografia se tornou mais rica à medida em que adquiriu consciência de seus direito a reconquistar seu próprio campo e a abrigar dentro deste muito mais que os tradicionais fatos políticos, diplomáticos e econômico-sociais, tendendo a inundar a planície com a chamada "História das Mentalidades". Cativava-se, sobretudo a partir da chamada Nouvelle Histoire (de Le Roi-Ladurie, Jacques Le-Goff, Paul Veyne e outros), um público leitor médio e independente das universidades e que já não precisava do Romance Histórico para interessar-se pelo passado. Contudo, o fato de não se ter divulgado sobejamente que a Nouvelle Histoire já não precisava do aval dos "cientistas sociais" para adentrarem-se também no presente fez com que se subestimasse a maturidade com que a historiografia atual desenvolve sua própria Epistemologia e sua relação com a noção de "realidade", doravante vista como construção (e não como coisa dada, como o queriam os positivistas).

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4


A História (e as "ciências sociais" que ainda mantêm algum pudor epistemológico) tem descoberto que o homem é mais variável do que parecia à primeira vista e que ele se recria a cada época e cultura a tal ponto que a impressão que dá de repetir-se é mera ilusão. Torna-se cada vez mais claro que sempre que se vê alguma semelhança entre o homem que conhecemos e o de outra época é sinal de que a visão está embaçada, porque só de longe eles se parecem. Ora, é encantador mostrar historiograficamente que o homem do passado era maravilhosamente irreconhecível para nós, e isso torna estéril o Romance Histórico (ao menos tal qual nós o concebemos), que precisa de algum grau de generalidade no passado, uma certa concepção de eternidade do homem e de seus valores. Então o Romance Histórico passa a soar cada vez mais falso e empobrecido, e é assim que morre paulatinamente, sob nossos olhos (o modismo atual pelo gótico denuncia o apelo excessivo pelo fantasioso, que o gênero sempre exibe quando está em crise) um gênero literário outrora florescente e que agoniza à medida em que despenca no niilismo o nosso ideal de verdade a todo custo.

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5


O futuro do Romance Histórico poderá talvez ser um outro gênero que reinsira o universal no contexto de outras épocas, não mais relacionando-o a uma pretensa natureza humana nem submetendo-o ao aval de pretensas "ciências do homem". Ora, os universais que restam são a Poesia, a Filosofia e uma maior consciência semiológica — o que nos faz pensar em Umberto Eco como possível precursor do futuro. Não sabemos o que surgirá daí como resultado, mas tratar-se-á, provavelmente, de projetar no passado não mais o homem eterno, mas o pressentimento daquilo que substituirá o próprio homem, e isso talvez sob uma pragmática engajada em seu advento e com a alternativa de simplesmente não se recorrer ao passado senão como procura de uma genealogia que busque as condições de ultrapassagem do homem atual.

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(por Waldísio Araújo. Escrito a partir de 22 de março de 2008)




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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:08




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