Waldísio Araújo

A HISTÓRIA TORNA SUPÉRFLUAS AS "CIÊNCIAS SOCIAIS"(*)

RUMO À EXTINÇÃO DE UM GÊNERO SEM UNIDADE

VOLTAR


Gabriel Tarde, precursor da Psicologia Social

1


O termo "ciência" foi erigido pelos positivistas em garantia de conhecimento certo, insofismável e essencial a uma época que, para eles, havia finalmente sobrepujado uma fase metafísica que sucedera a uma fase religiosa na evolução humana. No entanto, quanto de Metafísica e de Religião pode ser encontrado nas próprias bases atuais da ciência!



/**********\/**********\


2


O Positivismo acreditou numa possibilidade que todos os séculos anteriores sabiam vã: numa ciência do homem, algo que para eles ultrapassaria a História — que não passaria de mera colagem de fatos existente tão compactamente como bolas de bilhar ou como o átomo de Dalton. Mas nós sabemos que as bolas de bilhar somente são compactas para numa perspectiva macroscópica, que o átomo é apenas um complexo nó de forças e que o fato histórico é uma construção. A Sociologia ("Física Social"!), que os positivistas criaram para servir de "explicação científica" para os fatos históricos (em si apenas passíveis de descrição e narração), está condenada, portanto, desde sua fundação, a dissolver-se no não-ser, como tudo o que parece sólido...



/**********\/**********\


3


Gabriel Tarde sabiamente viu que o objeto "sociedade" é vazio e não possui substancialidade, contra um Durkheim que reificava tal conceito(2), e que seu pretenso contraditório, o "indivíduo", tampouco tem consistência epistemológica. Na verdade, podemos considerar que o individual é tudo o que existe, mas não o conhecemos enquanto tal, enquanto singularidade, mas apenas sabemos das relações que eles mantêm entre si na constituição e vivência em grupos. Isso fundamenta a Psicologia Social, que é algo respeitável desde que se considere que fenômenos (como certas formas de submissão a lideranças, por exemplo), encontráveis hoje em dada sociedade, podem não fazer sentido quando procurados junto a povos estranhos a nós no espaço ou no tempo, ainda que o conhecimento desses fenômenos possa ser útil para a nossa vida prática. Logo, juntam-se na Psicologia Social, mais ou menos harmonicamente, uma História do presente e uma Praxeologia. Na Sociologia, ao contrário, essa mistura é caótica, sem unidade. Mas Gabriel Tarde foi preterido em favor de Durkheim pelos interesses cientificizantes das "ciências sociais" nascentes, que se apossaram dos espaços acadêmicos, de modo que só recentemente ele tem tido seu valor devidamente apreciado fora dos círculos da Psicologia Social.



/**********\/**********\


4


Claro que é possível filtrar, dentre as diversas "ciências sociais" algo aproveitável, e muitas de suas obras são realmente grandiosas, inteligentes e férteis. Porém, o encadeamento sucessivo das várias obras e movimentos não funda um saber cumulativo, pois não tem um objeto e um método reconhecidos pela maior parte da comunidade "científica" exceto como modismos passageiros como o foram o Evolucionismo Social, o Funcionalismo ou o Estruturalismo. Ao final, todas essas obras apenas fortalecem a História que se faz e, provavelmente, as praxeologias que poderão advir.



/**********\/**********\


5


Apenas as convenções acadêmicas mantêm o mito de que as "ciências sociais" seriam de alguma forma fundamentadas. Mas basta devolver à História o seu direito pleno a estudar o presente e as estruturas para que as "ciências sociais" se tornem supérfluas. Com efeito, que tem sido a Sociologia (para além de suas pretensões pragmáticas) senão História das estruturas dos povos do presente rotulados de "civilizados"? E que tem sido a Antropologia senão a versão equivalente para os povos que ela mesma, no passado, classificou como "primitivos"? E por que estudar as estruturas sociais da Grécia antiga ou as estruturas de parentesco dos antigos nômades citas seria fazer História, mas estudar as estruturas sociais norte-americanas ou as estruturas de parentesco entre os trobriandeses atuais seria fazer Sociologia ou Antropologia, respectivamente?



/**********\/**********\


6


Ora, a História já nasceu, com Heródoto, voltada para o estudo descritivo e narrativo de sua contemporaneidade antes que a tivessem relegado à narração e ao passado. Sociologia e Antropologia apenas aproveitaram, em sua formação, as lacunas do conhecimento histórico e apossaram-se do campo até o advento da École des Annales, que lhe devolveu sua dignidade perdida. Mas então por que permanecem as "sociais" num aparente monopólio? Ora, porque a palavra "ciência" ainda tem para elas e para o mundo acadêmico o fascínio que tinha para seus pais positivistas, porque fingem ignorar que os historiadores já estão há décadas retomando seu campo e porque sustentam o mito de que "descrever" e "narrar" é algo inferior em relação a "explicar", apanágio das ciências — como se a História não tivesse o direito de fazer as três coisas e como se a ciência não fosse também descrição...



/**********\/**********\


7


A descrição científica é baseada em umas poucas características dos seus objetos: para descobrir que os corpos se atraem de acordo com certas relações ao menos grosso modo constantes, ela tem que abstrair daquilo que individualiza cada corpo, ater-se a algo bem geral, como a massa e a velocidade, algo diante do que pouco importa se o corpo é uma laranja, um homem ou uma estrela. Já a descrição histórica interessa-se por todas as características de seus objetos, pois o que é destituído de importância para um estudo é, ao menos potencialmente, muito importante para outros, e isso faz com que seja interessante saber que este objeto é um homem e, mais ainda, que este homem seja Sócrates, Napoleão ou o cidadão anônimo do século XVII cujo registro de batismo acabamos de encontrar.



/**********\/**********\


8


É verdade que as que se intitulam "ciências sociais" também podem (e o fazem) isolar, na constituição de seu objeto, apenas determinadas características e ater-se a elas na procura de relações mais ou menos estáveis que fariam parte da vida social humana agindo, assim, de forma semelhantes às ciências propriamente ditas. Porém, o homem reinventa-se tão intensamente que as suas pretensas estabilidades sociais e culturais somente permitiriam conhecimentos científicos muito pobres, posto que apenas falariam o óbvio: que todo ser social humano, enquanto espécie, nasce, alimenta-se, reproduz-se, produz, educa-se, adoece ou morre, pode acreditar em um Deus, pode praticar esportes, pode cantar ou pode votar na Esquerda ou na Direita... Mas isso é muito estéril, sobretudo porque há um pensamento histórico capaz de enriquecer tais conhecimentos a partir da constatação das diferenças (não das semelhanças), segundo as quais o homem não possui poucas nem previsíveis maneiras de educar-se ou de fazer sexo, mas cada cultura, inclusive as contemporâneas, inventa e reinventa suas próprias formas, incrivelmente originais e interessantes por si.

/**********\/**********\


9


Os "cientistas sociais" não precisam preocupar-se com seu desemprego em massa no futuro: basta-lhes não se envergonharem tanto de serem historiadores ou dedicarem-se com criatividade às praxeologias (existentes a a surgirem) que, a exemplo da Economia, da Teoria dos Jogos ou da Informática, têm trazido realmente benefícios à ação humana.


____________________________________________________

NOTAS:

(*) O essencial para essas notas encontra-se em VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Trad. A. J. da S. Moreira. Lisboa: Edições 70, 1987. (Col. Lugar da História, vol.20)
(1) Um belo estudo sobre o golpe de força que, contra Gabriel Tarde, entregou às tendências de Durkheim o direito acadêmico a estabelecer o que seriam as chamadas "ciências sociais" encontra-se em VARGAS, Eduardo Viana. Antes Tarde do que nunca: Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.



(por Waldísio Araújo. Escrito a partir de princípios de março de 2008)




Creative Commons License
A obra textual acima está licenciada sob uma
licença Creative Commons
.

Nosso texto acima (não considerar, pois, eventuais imagens e citações de terceiros) pode ser copiado e divulgado livremente, inclusive com fins lucrativos, sem necessidade de permissão nossa, desde que mencionada a nossa autoria. Adicionalmente, solicitamos que seja referenciado o link (ligação) para esta página e, se possível, que nos seja comunicada a forma como podemos ter acesso ao local (real ou virtual) em que o referido texto foi utilizado. Agradecemos a compreensão.


Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:05




COMENTE, CRITIQUE, APERFEIÇOE:





(0 / 1000)






CONTRIBUIÇÕES:


Nenhuma contribuição até o momento.
Preencha os campos acima para iniciarmos nosso diálogo