DESSACRALIZANDO AS PRETENSAS ESSÊNCIAS
1
A Erudição serve à História simplesmente como estabelecimento, fixação rigorosa dos fatos como verdadeiros. O que chamam Síntese é o que importa, é a obra histórica propriamente dita. A Erudição pode ser rigorosa e até "científica", mas ainda não é História, e por muitos séculos esta viveu sem ela, logo ela não é essencial.
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2
O discurso histórico narra ações e descreve o seu contexto. Não há História que não possa ser narrativa e descritiva ao mesmo tempo: narram-se ações que se explicam por todo o seu contexto, e este sempre pode ser descrito. E até se pode descrever sincronicamente uma estrutura, seja ela a democracia grega ou o escravismo colonial brasileiro, sem que nem uma palavra seja dita sobre as transformações dessa estrutura, ainda que esta tenha que ter durado ou ainda dure — o que mostra que o tempo (incluindo o passado) não é essencial à História (apenas a duração o é), que o presente pode ser objeto de História (pois as estruturas que encontramos no presente perduram) e que o historiador pode ao mesmo tempo selecionar subjetivamente seu objeto e descrevê-lo objetivamente.
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3
Claro que uma obra histórica, como tudo o que existe, pode ser utilizada como meio para determinados fins, mas sempre haverá, ao menos potencialmente, uma crítica e uma erudição possíveis que lhe denunciarão qualquer desrespeito à convenção constitutiva do gênero: ser discurso do verdadeiro. Apenas mudam os critérios do que viremos a chamar "verdadeiro"...
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4
Além de descritiva e narrativa, uma obra historiográfica pode ainda mostrar conexões causais, isto é, ser explicativa. Mas isto não a torna "científica", porquanto não é essencial que se enumerem causas (pode-se optar por apenas descrever ou narrar) e sobretudo porque ela não se submete à busca de invariáveis (posto que pode sempre optar-se por uma simples explicação do caso, sem reportar esta a casos semelhantes). Mera constatação e comprovação de nexo causal ainda não é ciência, e qualquer detetive pode fazê-lo e o faz.
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5
Macrogêneros descritivo, narrativo e dissertativo são permitidos em História, e esta pode valorizá-los ao mesmo tempo em proporções diferentes, de acordo com a criatividade do historiador. A única regra é manter a coerência do discurso e a veracidade de suas proposições.
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6
A História não precisa usar de artifícios para induzir a crença no leitor e no crítico, porque ela sempre insinua falar a verdade, ou seja, aproveita-se de uma crença já solidamente enraizada. Ao contrário, os outros gêneros literários deverão usar de vários recursos para convencer o leitor a crer na verdade do que está lendo ao menos ENQUANTO o lê. Mas, além disso, qual o papel exercido tanto na História quanto na Literatura pelo ideal de beleza (expresso em ritmo, harmonia, sonoridade, evocação etc.)?
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7
A Verdade, idéia constituinte do gênero histórico, deve ser historizada a fim de que o campo histórico virtual se complete. Este é o grande desafio que resta ao historiador: destruir, com as verdades, a Verdade.
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(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:12:04
Waldisio (waldisio@hotmail.com) escreveu, no dia 21/09/2008, às 17:53:10:
suzie (suzane_g@hotmail.com) escreveu, no dia 20/09/2008, às 17:14:34: