ÀCERCA DO QUE NÃO SE PODE FALAR
1
Fora dos limiares dos sentidos, luzes, sons, pressões insusportáveis nos bombardeiam incessantemente de todos os lados, tanto dentro quanto fora do eu e das coisas que inventamos para ocultamos de nós mesmos que o que há são forças indomáveis que se movimentam caoticamente e que não conhecem limites espaciais, temporais ou conceituais. Os golfinhos e os morcegos percebem certas ondas energéticas que nós não percebemos, assim como nós percebemos cores ou sons que talvez eles nao percebam. Claro que a Tecnologia pode criar sonares que captam à maneira como o fazem os morcegos e golfinhos... Mas que dizer de frequências desconhecidas que talvez nem nós nem aqueles animais podemos captar ou sequer pressentir? Podemos então imaginar que o mundo (e nós, dentro dele) não tem cores ou sons que delimitem e tornem individualizadas as coisas, mas somente ondas de energia. A constituição do universo é então microscópica, e se tivéssemos sentidos microscópicos potentes veríamos simplesmente o caos. São os limiares macroscópicos de nossos sentidos o que nos dá a ilusão de ordem, e nossos microscópios e conceitos não podem ampliar indefinidamente seu raio de ação a ponto de um dia enxergarmos e dotarmos de ordem o Abismo. "Mistério sempre há de pintar por aí", como diz a letra do Gilberto Gil.
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2
São as dualidades do pensamento racional que nos ocultam o Caos. Consideramos, por exemplo, o conceito de vida e a ele associamos imediatamente seu oposto conceito de morte, e isso nos oculta outras coisas porque a palavra "morte" ocultará algo mais que o conceito "não-vida", que deveria ser o verdadeiro oposto de vida. Ora, esse "algo a mais" nos é desconhecido justamente por estar fora da dialética morte-vida, mas nada impede que exista e esteja aí... Mas é desconfortável abdicarmos das nossas oposições conceituais, pois por trás delas se esconde a dor, a loucura e o aniquilamento... Como todos os conceitos, o de "morte" serve apenas para ocultarmos o Abismo sob nossos pés, para que durmamos em paz. No entanto, temos pesadelos terríveis de que não nos lembramos...
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3
Não há conceito ou palavra fortes o suficiente para pensar ou expressar o Abismo. Mas isso não impede que seja dele que advém a força para criar-mos conceitos e palavras novos. Contra Wittgenstein, diria que é justamente sobre o que não se pode falar que não devemos silenciar, pois o Abismo é o silêncio que grita dentro e fora de nós e do mundo que expressamos e pensamos.
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4
Muitas mitologias antigas consideravam o Caos como aquilo que existira desde sempre e dentro do qual surgiriam e se imporiam as potências da Ordem. Contudo, a emergência destas não aniquilavam o Caos definitivamente, de modo que era necessária uma reatualização ritual periódica da ordem do mundo. Foram as religiões subseqüentes, sobretudo as monoteístas, que decidiram-se pela aniquilação do Caos, por seu desaparecimento a partir da criação de um mundo cuja ordem seria doravante garantida por um ser perfeito, sábio e bom. Hoje, nós matamos culturalmente este ser perfeito, mas nossa Ciência assumiu os poderes divinos de exorcização do Caos: ela não fala de Deus em seu discurso justamente porque vive da morte dele; a Ciência moderna é a última gargalhada de vingança do Deus morto. Mas o Caos continua lá onde sempre esteve: nos interstícios do mundo, dos homens e das idéias — sempre ameaçador, mas sempre fonte da força e da criação de tudo o que é vivo, alegre, saudável e forte.
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5
Em relações interativas de confronto, anexação e alianças provisórias, as forças indestrutíveis que perfazem o Universo se reconfiguram eternamente. Desta eterna reconfiguração surge, para nós, a Ordem por entre os interstícios do Caos inesgotável e fecundo no qual ela se faz e se dissolve. Mas este Caos não é o Nada dos filósofos, o qual não passa de uma idéia construída por nós mediante o princípio de não-contradição, que nos insinua que para pensar o Ser temos que postular uma idéia que lhe seja oposta e mesmo contraditória (o Não-Ser ou o Nada) e que seja contraponível com ela como pólos de pensamento dialético. A dialética, porém, na medida em que conjura a visão da face do Abismo, oculta a dor, a morte e a loucura (que saltariam aos olhos sem ela), mas à custa de um enfraquecimento do impulso vital. Ao contrário do que ela busca ocultar, o Caos é a verdadeira fonte universal de vida, ou seja, de vontade, poder, ação, ser e criação.
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6
As oposições dualistas (inclusive as dialéticas) são necessárias para pensarmos o mundo e a vida e os expressarmos, mas a construção de sistemas coerentes nelas fundados equivale à ereção de castelos de areia em que é perigoso resisdir porque não somente os ventos e as ondas, mas também (e sobretudo) a fragilidade do cimento intersticial ameaça obra e moradores. Tudo flui, e toda permanência cobra seu preço como uma lei de justiça que condena a pretensa estabilidade a retornar ao Abismo com dor redobrada: a dor de perder-se do fluxo universal, de ficar para trás quando tudo o mais mudou, ou melhor, de ser engolfada inexoravelmente por todas as forças da maré que suas débeis muralhas não podem deter. Melhor seria, então, seguir o fluxo na medida do possível, a fim de reconstruir-se incessantemente a casa ou transformá-la em arca para a manutenção da vida, mediante a substituição da vontade de fazer castelos pela vontade de navegar por novos, desafiadores e maravilhosos oceanos.
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7
Por toda a história do pensamento humano se verifica uma tentativa de ocultamento e afastamento do Caos informe e inefável. A princípio, ele aparece, para muitas mitologias antigas, como algo primordial e indestrutível do qual surgirão e se imporão as forças da Ordem. Mas esta ordenação não significava a extinção do Abismo, pois este tendia a ser considerado como um estar-aí irredutível cujos poderes pairavam pairavam eternamente acima, abaixo e por entre as coisas ordenadas — poderes que necessivavam ser conjurados mediante rituais periódicos de reatualização da Ordem, como o mostram as festas de Ano Novo no Oriente Próximo antigo, por exemplo, em que o casamento ritual do rei com a Deusa garantia a renovação cósmica. E não è à toa que, entre os gregos, os reinados sucessivos de Urano, Cronos e Zeus não representam a eliminação do Caos primordial, mas uma relativa domesticação de suas forças, doravante relativamente contidas nos limmites abissais do mundo.
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8
Com a paulatina construção do Deus judaico-cristão, e na esteira da invenção do Ser e da dialética pelos eleatas, o Caos passou a ser negado enquanto existência e sub-repticiamente expulso do pensamento. o espírito do Deus do Gênesis ainda pairava sobre as águas antes da Criação, o que quer dizer que não estava sozinho antes desta e que não estava no Nada; mas em breve o fiat divino seria interpretado como criação a partir do Nada, não como simples ordenação a partir do Abismo — num movimento paradoxalmente complementar ao da dialética eleática, que também substitui o Caos pelo Não-Ser mas agora pela recusa a pensar-se a criação ou ampliação a partir do nada. Finalmente, nossa Ciência moderna mantém esse projeto monoteísta de eliminação das potências abissais ao aceitar o pressuposto tácito de que seria perfeitamente explicável e descritível com o paulatino desenvolvimento dos recursos lógico-matemáticos e instrumentais (aliás, que seria nossa recente Teoria do Caos senão mais uma forma histórica de alijamento?), ainda que a Física Quântica contenha em si a intuição da impossibilidade de tal projeto, a julgarmos pelos princípios (ou o mesmo princípio, para alguns) da Indeterminação e da Incerteza.
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(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 12/08/2008, às 01:05:25
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