NOS INTERSTÍCIOS DA LINGUAGEM E DO PENSAMENTO
A superficialidade em escrevermos ensaios curtos ou longos, artigos, teses ou tratados reside no fato de que eles exigem uma rígida estruturação da reflexão, uma unidade discursiva que atravessa toda a obra tanto em pensamento quanto em linguagem ou arte — que contrastam com um real que não é estruturado, unificado ou belo (nem os contrários dessas três coisas), exceto na aparência criada pelo pensamento, pela linguagem ou pela arte.
Claro que isso vale também para moléculas de discursos chamadas "aforismos", mas a profusão e dispersão delas potencializam as diferenças em detrimento das semelhanças, o múltiplo em detrimento da unidade, evitando assim o absolutismo dos sistemas — sobretudo se os tentamos publicar à medida em que aparecem à mente, pois aqui o inacabamento do conjunto em que eles irão inserir-se e a falta de uma "definitiva" revisão fazem aparecer incoerências, lacunas e mutilações no tecido pretensamente homogêneo da linguagem e do pensamento, denunciando o caráter precário e convencional do sujeito.
A forma aforismo presta-se melhor, portanto, ao discurso que não mais acredita em si próprio como verdade absoluta e que sonha em livrar-se definitivamente de seu autor... O que, aliás, acaba por fazer-se mais cedo ou mais tarde, independentemente da forma (aforismática ou não) do discurso. E o autor sempre acaba expulso de sua obra, considerada seja como conjunto seja como individualidade, e cada obra sua valerá por si só, e dele não precisa, e entregar-se-á a outros amantes traídos.
(por Waldísio Araújo)

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Última atualização do texto: 08/08/2008, às 01:15:11